22 de dezembro de 2010

leitura


Finalmente terminei o livro "Vamos Comer?", da Nina Horta, colunista de gastronomia da Folha de S. Paulo. Nem sempre gostei dos textos dela. Às vezes achava que tinha nome em francês demais, coisa que a nossa comida não precisa, e às vezes achava que era gostoso de ler, com cheiro de tempero fresco. Procurem ler a coluna dela de vez em quando e vamos conversando sobre, que tal?

Mas aí achei esse livro num sebo de Jaraguá há mais de um mês, e fui lendo em doses homeopáticas. E como todo tratamento homeopático, virei o vidrinho inteiro goela abaixo no final. Já devo alertar que o texto abaixo é majoritariamente composto de lembranças dos meus tempos na cozinha da vó e um pouquinho só de livro da Nina Horta (aliás, que nome lindo. Sempre quis ter nome de flor ou planta no meu nome).

Não tinha como eu não gostar do livro. Primeiro porque é sobre comida. Segundo porque, por uma passada rápida de olho durante a avaliação, li a palavra "merendeira". Estudei a infância toda em colégio público e lembro bem do purê de batatas da dona Celestina, que ainda deve estar encantando papilas gustativas na Escola Athayde Machado, do lado da casa da minha vó, em Jaraguá do Sul. Antes dele, lembro da ojeriza que tinha quanto ao grude do sagu em uma creche municipal, onde as tias não trocavam minhas fraldas sujas. Era terrível.

Depois, já com uns 12 anos, comecei no Alberto Bauer, colégio maior e com uma merenda menos caprichada, poucos colegas legais e uma biblioteca mais ou menos. De lá, ainda trago o gosto pela combinação de beterraba sem tempero com feijão preto e farinha. Depois, fui pra colégio particular, estudar o dia todo pro vestibular e comer um sanduíche caro da cantina, que não raro vinha com uma larva branca de brinde na alface. Não tinha a menor graça.

Na infância, a gente come coisas com mais gosto que em qualquer outra fase da vida. Vai ver é porque tudo é novo e a gente ainda não aprendeu a fazer muita cara de nojo. Nunca entendi porque comia um vidro inteiro de beterraba que a vó fazia em conserva, a casca do pão caseiro e a cebola da salada, enquanto meus primos achavam horrível tudo que não tivesse recheio. Em contrapartida, até hoje não como frutos do mar e não tenho sequer uma desculpa convincente para o fato. É, a dona Nina me fez relembrar de tanta coisa...


Confesso que fiquei tentada a reproduzir aqui muitos e muitos trechos, mas não anotei todos. Vou falar então, do conceito que achei na página 77, e que vou passar a usar a partir de agora: comida de alma, que é aquilo que a gente come pra se sentir bem. A canja da mãe, a bala de nata que minha tia fazia, a cuca de banana da vó, carne de panela e aipim molinho misturados com farofa. Depois que comecei a morar sozinha, tentava fazer a abobrinha refogada que minha mãe servia junto no almoço, mas era meio inconsciente isso do "comer pra se sentir melhor". Era mais porque eu gostava muito, mas nunca acertava o tempero, aí desisti. Hoje a mãe nem cozinha mais de tanto que trabalha, e quem inventa almoço por lá bem de vez em quando sou eu. O refogado de abobrinha tá esquecido. Por enquanto, aqui no meio das cebolas e alhos, eu tento inventar umas comidas pra me acalmar, mais pelo processo que pela finalidade. Por isso, minha gente, não é por mal que não convido ninguém pra janta. Às vezes, seria o mesmo que convidar alguém pra assistir à uma sessão de terapia.

Poderia escrever muito mais sobre o quanto o livro me fez pensar no significado da comida pra gente. Até, tem muitas elocubrações interessantes sobre o porquê comemos o que comemos, de que jeito se come aqui ou acolá, o que se come e como. Comida é tanta coisa junta (em ingrediente ou significado) que tem que ser mais pensada pela gente. Tanto na hora de montar o prato no buffet quanto na hora das compras do mês. Uma vez vi um filme que chama O Tempero da Vida e fiquei muito tempo encantada pela quantidade de combinações diferentes das que eu via minha mãe fazendo. Escondida, pra ninguém me zoar, comecei a botar canela na carne moída. Todo mundo gostava mais quando eu preparava, e só depois de um tempo falei que tinha canela. Minha mãe quase teve um treco na mesa, o resto ficou me olhando, como se eu tivesse aprontado alguma coisa, tipo feito xixi na água do macarrão. Depois normalizou, hoje tenho carta branca pra temperar cachorro quente com alecrim e improvisar qualquer rango com o que tiver em casa. Todo mundo vai comer, por pior que fique.

Além das mil memórias que me suscitou, amei o livro pela ilustração de jaca do projeto gráfico, das receitas caseiras pra tirar olheira (assim que eu testar, posto aqui o resultado), das receitas de comida do Brasil e da Índia, do palavreado bonito que a Nina usa pra falar de uma coisa tão simples que é comer. Não tem nada de empolado, de comida chique e difícil de falar o nome, nem de ingredientes que a gente nunca acha na prateleira do mercado ou na mesa da feira. O livro poderia ser devorado de uma só vez, que nem docinho que a gente compra nos intervalos de aula ou trabalho e vai comer logo antes que dê a hora de voltar pro batente. Mas é mais gostoso digerir assim, aos pedacinhos, pra assimilar cada passo das receitas e cada coisa dita, e depois ficar lembrando do sabor.

2 comentários:

  1. Ai, cacete.
    Te fiz um comentário ontem à noite e ele não ta aqui.

    Següinte: traz o livro pra eu ver. :)
    Se eu começar a ler e não te devolver logo, a gente combina uma visita pra resolver isso.
    De fato, comer envolve um milhão e meio de pensamentos e memórias.
    E se eu não sou a pessoa mais cheia de nostalgias, não sei quem é. hah

    Já to na minha mãe desde ontem, e tu?
    Ainda não sei quando vou pra Jguá, mas a gente tem que combinar algo enquanto tu ta aí.

    Beijocas!

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  2. Da série: Livros que a Flá vai me emprestar quando a gente se ver em 2017.

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