15 de julho de 2013

um bode imenso da internet: estupidoce em latência

- Vim boicotar a internet de vocês.


[ou: sobre perder o tesão por algo que você sabe que faria diariamente se não tivesse, claro, perdido o tesão]

Há pelo menos dois anos eu sei que a única coisa que estarei fazendo daqui a cinco ou cinquenta anos é estar escrevendo. Para alguém, para mim, para um jornal ou revista, que seja. Estarei escrevendo. E como a História tem provado, não há hábito tecnológico reversível - em miúdos: continuaremos usando a internet até o fim dos (nossos) tempos. Seja em perfil de rede social, um site de notícias ou um blog como este aqui, até dói imaginar que eu nunca mais estarei em paz se ficar offline por muito tempo.

Desde que comecei o blog, toscamente em 2010, eu sentia muita alegria em publicar ou sentar para escrever um parágrafo aqui. Verdade seja dita, praticamente todos os posts desse blog foram escritos de uma sentada (inclusive este aqui), e esse é o único lugar público que posso falar bobagens sem que alguém me reprima por ser "boca suja". Por esta canja, agradeço a vocês todos. Saibam que o hiato entre postagens não é intencional. O tesão que passou não foi o de cozinhar. Foi o de escrever sobre o que escrevo aqui. E olha que, toda vez que penso em sentar para postar neste blog, confesso que me alegro. Aí penso o quão desnecessário é esse espaço, se posto ao lado de tantos deste tipo na internet. Não, não quero confete. Queria voltar a ter vontade de continuar contando aqui meus experimentos na cozinha, mesmo que esses posts não tenham acessos ou comentários como muitos espaços similares têm pela internet afora.

Talvez seja esse leiaute deprimente do blogspot e a minha inabilidade em melhorá-lo (para isto, paguei alguém que sabe fazer isto. em breve, novidades.), talvez a enxurrada de coisas que quero ler e fazer antes de sentar a bunda na cadeira para detalhar uma sopa, uma torta ou um bolo. Teria umas cinco receitas para postar, se quisesse; nenhuma rascunhada ou devidamente fotografada. Talvez seja a falta de paciência que tenho para arrumar um cenário pra comida (detesto) ou para ajeitar o rango e tirar uma foto (soma-se a isso a falta de grana para comprar uma máquina bacana... o que um desfoque no fundo não faz por uma torta desmilinguida?).

Ou talvez seja essa atmosfera de "o meu é melhor que o seu" que eu tenho sentido por aí, faz meses. Sinceramente, cada vez que vejo alguém arrotar conhecimentos culinários pela web, sinto vontade de desistir de conversar sobre comida - pelo menos no ambiente on-line. Mas e aí, como fugir da internet e seus becos de discussão?

Estou por aí pesquisando e lendo sobre tudo, seja carne ou salada, e sempre me deparo (invariavelmente, são os pró-salada os mais chatos. triste cenário: é da salada que gosto mais) com um ativismo vazio e sem paciência. É a atualização daquela máxima "faz yoga, mas não cumprimenta o porteiro": come soja, mas financia trabalho escravo. O esforço em mudar de atitude é louvável, porém forjado e invariavelmente algo temporário e superficial. E, por essas e outras, não quero ser colocada no mesmo saco que essas pessoas. Não sou dos extremos políticos nem culinários. Não rola. Prefiro ficar na minha e repensar esse espaço. Latência faz bem, já diriam as bactérias no congelador.

Continuo interessadíssima em testar receitas veganas e vegetarianas, mas prefiro me abster dessa competição irracional de ver quem come menos carne e ingere mais farinha de trigo e polvilho. Sério, galera, vão medir seus triglicerídeos. Que horror de fígado vocês devem ter.

Até agora, a internet é o meio mais eficiente para descobrir receitas e ideias, e por isso acho impossível imaginar uma vida offline ou uma fuga desses becos da rede. E neste exercício de me imaginar para sempre existindo on-line, entupindo timelines de opiniões dispensáveis e comentários engraçadinhos (ninguém mandou me convencerem a usar o facebook), me deparo com uma vontade cada vez menor de estar conectada e trocar informações por aí. É um paradoxo estúpido: apesar da papagaiada, é nos nichos extremistas que estão muitas das soluções que procuro. É também onde as pessoas estão trocando ideias e sanando dúvidas a partir de - veja você! - experimentos culinários como o meu e o seu.

Ai, meu São Crispim, acode!

12 comentários:

  1. Ah, Flávia! Espero que você continue postando, de verdade. A culinária não está entre minhas paixões, na verdade nem sei cozinhar direito, mas adoro ler seus posts. Mais de uma vez me deparei com um ingrediente que nem sabia que existia e a maioria das receitas sei que nunca vou fazer, porque são trabalhosas demais pro meu nível de preguiça. Mesmo assim, gosto de vir aqui dar uma espiada, e de vez em quando arrisco alguma coisa. A receita da sopa de batata do suadouro no bigode já fiz várias vezes, sempre lembro de você. A do purê de batata com linguiça também. O bolo de milho com queijo fiquei morrendo de vontade, mas odeio lavar liquidificador (e milho de espiga? jesus, quanto trabalho!).
    Também morro de vontade de ter uma alimentação mais saudável, e seu blog me inspira um pouco nisso. Me faz ter vergoinha de comer tanta coisa industrializada. Quando eu tiver mais tempo e disposição e dinheiro, vou botar em prática algumas coisas que vi aqui. Obrigada.
    Ando meio desanimada com o layout do blogspot também, que tristeza. Mas é certo que mudar o visual sempre dá uma empolgada.
    E essa é a vida, a gente vai mantendo nossos blogs meio mortos, de vez em quando dá uma ressuscitada neles... e eles fazem sentido pra gente. E pra mais uma meia dúzia de simpatizantes, que acho que fazem a coisa valer a pena :)

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    1. Obrigada pela doçura e sinceridade de sempre, Luisa. Estou repensando ele com carinho.

      Um beijo.

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  2. Só digo uma coisa: ficarei MUITO triste se não existir mais esse espaço em minha vida!

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    1. Pedro, você é um fofo! Ainda tô pensando no que vou te dar de presente (comestível, óbvio).

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  3. Flá, o problema é que as pessoas muito apaixonadas (no mau sentido) por algum assunto não se cansam.
    E aí já pensou? Tu paras de escrever, e todos os vege-chatos extremistas que-não-cumprimentam-o-porteiro continuam?
    O mundo precisa de gente esperta e plural se manifestando por aí.
    Se fosse por outro motivo, vá lá. Mas por esse não quero te ver desanimando, não.

    Beijo queijo.

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    1. É, Flo, o mundo é plural. Mas cansa, saca? Vou dar um tempo e veremos. Vai ter uma cara nova pro blog, isso vai ajudar também.

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  4. Animaê, brother. Você sempre foi e sempre será minha chefe-exemplo. Dá pra dar uma variada nos assuntos, escrever um pouco sobre o que você tem lido, sobre o cotidiano curitibano.. ainda que o blog leve um nome "gastronômico".

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  5. E eu descobri que tenho um perfil "blogger" hahaha que coisa! Acho que vou começar um também!

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  6. Flávia, por um acaso, encontrei seu blog. E eu amo o jeito mau humorado que você escreve e descreve as receitas. Me divirto lendo. Por favor, não pare. =(

    Esses tempos eu estava discutindo com uma amiga sobre o que você falou: tesão em fazer coisas. Porque a gente ama cozinhar, aí cogitei que pudéssemos fazer uma graninha com isso.
    Mas ela veio com uma opinião que me deixou com o pé atrás: quando o seu hobby vira trabalho, você perde o tesão. E eu tenho muito medo que isso aconteça.

    Eu sou vegetariana e acho que, a gente tem que comer bem e comer o que gosta.
    Mas, com um senso de experimentar sabores e gostos diferentes. Tem gente que usa disso pra fazer um ativismo chatíssimo e vazio e isso me irrita profundamente.

    Eu sou interessada na cozinha vegetariana, porque é o que eu como. Mas também me interesso em ler sobre todos os tipos de cozinha e preparo. Eu sei cozinhar comida "com carne", mas prefiro não fazer porque eu tenho um certo nojinho e cozinhar com esse sentimento só vai trazer más vibrações para a comida (eu acredito nisso).

    Por favor, Flávia. Volte a escrever no blog. Seus textos ácidos me divertem bastante e faça receitas vegetarianas pelo prazer que elas trazem, não por um ativismo apenas. Eu pelo menos não vou te colocar nesse saco. ;)

    Beijinho. ;)

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    1. Luma, não te conheço, mas te abraçaria agora. Obrigada pela mensagem. O blog voltará, mas vou repensá-lo. Se quiser conversar enquanto isso, me escreve: flanzies@gmail.com

      Adoro trocar ideia com gente que não é chata.

      Fique à vontade por aqui, a cozinha também é sua.

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  7. Flá, eu só cozinho brigadeiro, pipoca doce e macarrão com molho. Mesmo assim, todas as vezes que entrei aqui, amei. O que me impressiona não são as receitas, porque, como falei, quase nunca cozinho, mas isso de ter amor por alguma coisa. De contar pra quem você nem conhece como pode ficar melhor, o que deu certo o que não deu. Gosto de te imaginar escolhendo as coisas, lavando, cortando, é esse carinho por todos os passos que deixa esse blog tão gostoso. Se você parar de escrever eu vou perder um pouco a fé na simplicidade, vou me dar por vencida e seguir qualquer besteira do tipo "antes magra, agora sarada", com milhares de seguidores. Mas não é isso que eu procuro, sabe? Não faltam páginas sobre comida. O amor, na internet, é que é raro.
    Um beijão, querida.

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