24 de abril de 2014

oriental total / encaremos os fatos: não existe originalidade na internet

Mesmo. Você prega o olho em uma tela conectada ao 3G ou wi-fi e a primeira coisa aparentemente legal que se vê rende um "putz, como não fiz isso antes? é TÃO ÓBVIO" ou "filha da puta, faço isso há séculos e de repente essa parada é nova?" Eu sei, dói igual qualquer uma dessas reações. Infelizmente crescemos ouvindo que somos muito especiais, mas a verdade é que já fomos promissores. Hoje somos apenas primatas angustiados nas redes sociais, choramingando quando achamos feijão no pote de sorvete. Conheça seu congelador, amigos, é a primeira lição para uma vida menos frustrada.

Assim: uma vez foi a televisão. Nossa primeira amiga para todas as horas. Programação infantil na tv a cabo ou, para os menos afortunados, qualquer coisa da tv aberta que não fosse o programa da Silvia Popovic. "Pegue uma tesoura sem ponta e peça ajuda a um adulto" e com sorte você fazia uma pipa que só outras cinquenta crianças no Brasil iriam ter, porque -- estamos aqui para encarar os fatos --, ninguém fazia porra nenhuma daquilo que ensinavam. Ou ainda: uma hora de desenhos mais ou menos inteligentes na TV Cultura no fim da tarde, tipo aquele elefante inexplicável chamado Babar, a indiana Mena (minha primeira lição feminista foi a canção "Diga não ao dote"; obrigada, Mena!) e Doug Funnie nos mostrando os problemas de pré-adolescente que não tínhamos porque estávamos constantemente... na frente tv, claro. Pelo menos eu estava.

O que seguiu? Os amigos da escola. Aquelas pessoas que passavam o dia ao seu lado emprestando caneta colorida e que você jurava que iria continuar vendo até os 80 anos e falando das mesmas pessoas. Por sorte a gente se muda da cidade e faz novos amigos. Quem nasceu nos anos 1980 ou início dos 1990 (bem início, tipo até 1991 ou 1992) deve ter tido uma explosão de alegria quando praticamente toda casa de classe média tinha um aparelho de telefone. Uma hora por dia, no mínimo, eu tagarelava ao telefone. Não saberia dizer o que nos ocupava tanto. Nada, suponho. Aos 13 anos você não tem muita coisa interessante para falar. Olhe em retrospecto a sua vida e me diga: você era um prodígio? Não éramos. Nunca fomos. Sinto lhe dizer que o sonho deve acabar em algum momento, principalmente se você já passou dos 18.

Ah, mas o início dos anos 2000 e a euforia que foi a chegada da banda larga! Quem chegou foi a nossa ruína, colegas. Antes, ter uma pipa mal colada feita por você mesmo era o ápice da originalidade (creditamos o fato, na verdade, à preguiça dos amiguinhos da escola e não à sua vida iluminada, certo? Certo.) e sair para tentar empiná-la era o ápice do compartilhamento -- e culpar seu amigo por ter estragado ela era o nosso estilo todo especial da época de dar um unfriend. Estávamos treinando para o que se seguiria on-line. Sintetizando, esta foi a alegria genuína que o advento tecnológico da banda larga nos ofertou por tempo limitado: um telefone desocupado enquanto você estava no chat do HumorTadela escolhendo qual o melhor avatar para o dia. De repente, estar on-line era mais importante do que fazer qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo, porque a internet virou nossa melhor amiga. Não saberia dizer o que pôde (beijo, acordo ortográfico) nos imbecilizar desta maneira. Lembro dos amigos que nunca ficavam offline no MSN e só desligavam o computador quando o CPU tinha esquentado demais e precisava ir para o conserto. Trevas. A adolescência on-line é a idade média da nossa vida, anotem.

Aí quando achamos que estamos mais ou menos encaminhados na vida, surgem os memes. As decepções: "putz, como não fiz isso antes? é TÃO ÓBVIO" ou "filha da puta, faço isso há séculos e de repente essa parada é nova?". O facebook. O netflix. Os cinquenta milhões de links polêmicos ou maravilhosos que seria bom lermos antes de ver o vídeo. Ou melhor, vejamos o vídeo primeiro e depois lemos o link e aí escrevemos um status enorme comentando o texto sobre o vídeo que já não é pouca coisa e aproveitamos que estamos na presença da nossa melhor amiga, a internet, e choramos as pitangas relacionando nossa vida com aquele texto enorme sobre o vídeo etc etc etc. Vocês entenderam. Todos nós fazemos isso.

Rola um sentimento de impotência, não? Parece que nunca vamos dar conta. Por exemplo, eu me perdi no noticiário sobre a Síria. Sobre a crise da Crimeia. Da última vez que eu vi, tinham encontrado 50 corpos daquela balsa que virou com estudantes secundaristas da Coreia do Sul. Não sei qual foi o último absurdo do Kim Jong-Un. Não consegui ler tudo sobre a Petrobras (e quase durmo quando tento). Recebo um quilo de links sobre comida toda semana e não consigo ver praticamente nada (mas continuem mandando; um dia, quem sabe...), muito menos os que são vídeos. Nem o programa da Bela Gil eu tô conseguindo ver, e olha que esse eu fiz questão de acompanhar sempre pela internet. O que nos traz ao creminho de hoje.

Paciência se minha nova melhor amiga atende pelo nome de "bar com os amigos". Paciência se meu novo programa favorito de culinária está inacessível temporariamente. Explico: estou sem internet em casa há pelo menos dois meses (é uma longa história) e não tenho tv a cabo (os motivos são óbvios). Mas no feriadão de Páscoa fui para a casa dos meus pais e consegui ver um episódio. É aquele em que ela recebe a atriz Paula Burlamaqui e prepara coisas com soja. Uma das receitas é um molho de tahine com missô para um agrião refogado, que fiquei bem curiosa para provar. E esses dias não deu outra: a geladeira estava vazia e eu tive que inventar algo com o que tinha. E tinha tahine e missô. Vamos ser honestos aqui, tá? Não curte tahine ou missô, nem faça essa parada. Depois não quero ouvir chororô de "ai, mas o gosto continua forte, né?". Continua sim. Compra um azeitinho aromatizado se não quer muita aventura, beleza? Beleza.



creminho de missô com tahine e coentro
2 colheres de sopa de "bagaço" de amêndoa (quando você faz o leite vegetzzzzz; leia mais no meu blog sério e amável) ou outra castanha ou semente
1 colher de chá de tahine
1/2 colher de chá de missô
1 e 1/2 colher de sopa de coentro picado (manda ver com talo e tudo, não seja fresco)
um pouquinho de azeite de oliva e sal se achar necessário

Misture tudo e seja feliz. Eu comi com abóbora japonesa cozida na água com louro e alecrim e temperada com um pouquinho de pimenta-do-reino, sal e azeite.
Pra acompanhar, fiz também um refogado de repolho roxo com cebola e gengibre. Peguei o equivalente a uma folha grande de repolho roxo bem firme e cortei em tirinhas. Refoguei meia dúzia de lâminas de gengibre fresco com uma cebola pequena em rodelas finas (uma colher de chá de açúcar, uma pitada de sal ou shoyu e um tisco de óleo só pra não grudar na panela) e deixei 'caramelizar'. Aí coloquei o repolho e refoguei só até murchar um pouquinho.



Outra coisa que tem me doído na alma e tem um pouquinho a ver com originalidade na web: se você pegou a receita ou a inspiração de algum lugar, dê o crédito, cara. Até onde eu li, o marco civil da internet não vai te tirar do ar por falta de originalidade. Aliás, a internet toda iria descarga abaixo se precisássemos produzir apenas conteúdo original. Verdade seja dita, metade dos livros publicados também iria e alguém ia morrer, sei lá. Enfim, pra resumir: tá liberado fazer um blog só com receita dos outros. Exemplo: pegou (uma receita já copiada de outro lugar) do Tudo Gostoso? Não se reprima. O preparo pode ser ridículo de óbvio e intuitivo, mas dê o crédito, cáspita! Cozinhar certas coisas é difícil pra caralho, se alguém já fez isso antes de você e te ajudou a entender as proporções e combinações, linke, indique de onde veio, coloque a capa do livro no seu post, etc. Não vai cair seu fura-bolos e nenhum leitor vai te achar menos especial por isso. É sério.

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