15 de junho de 2014

é preciso digerir Belém

Lavei a boca com sabão para falar de Belém. Gostei muito. Este é um trecho de um texto que fiz para um curso de pós-graduação. Achei que, por ter inevitavelmente falado de comida, caberia aqui. Todas as fotos foram tiradas com o meu celular.

Cena comum nos igarapés

O Pará, apesar de ser pura água – igarapés, peixes, tucupi e chuva; o próprio tacacá tem sabor de rio quente – emana um calor telúrico, uma força que amadurece cacau e faz tudo ter cores amareladas, avermelhadas, esverdeadas. Pinta uma mata urbana e aproveita seu clima equatorial, úmido e quente, para amolecer corações. É difícil resistir ao estupor que nos assalta à primeira vista da floresta amazônica. De cima, quando ainda estamos alheios à realidade de Belém no assento do avião, tudo o que se vê é uma massa densa de árvores. Fantasio tocar a superfície tão diminuta com a minha mão gigante, afagando levemente, como em um cafuné, as copas e sentindo suas texturas imaginárias de brócolis, samambaia e musgo.
Ao pronunciar a palavra Belém as sílabas deveriam nos trazer à boca o gosto levemente azedo do tucupi. Deveria dar vertigem como a visão dos igarapés serpenteando pela mata amazônica, miniatura de natureza que enxergamos do alto do avião. O cheiro do Mercado Ver-o-Peso deveria nos assaltar de imediato com o odor do pirarucu defumado e dos maços gigantescos de coentro e salsinha frescos. Porque, sensorialmente, Belém é única e uma palavra deveria evocar todo o som e as cores que faltam para completar a cena. Quem nunca viu Belém dificilmente abstrai sua essência através de um relato como este. Mas é preciso tentar. É preciso digerir Belém. 
Não é carimbó, nem mosquito. É o calor, mas também é o vento congelante que sai dos aparelhos de ar-condicionado no outono, máquinas instaladas em qualquer estabelecimento de médio porte e cuja temperatura abaixo de 16 graus C os belenenses curiosamente suportam em mangas de camisa. O sol mal dá as caras. Os dias outonais são perpetuamente nublados e abafados. E as chuvas – lamento desmentir a lenda – não tem hora marcada. Ela cai, impiedosa, a qualquer momento sobre a cidade como uma ducha morna antes de um mergulho na piscina. Do jeito que vem, se vai, deixando tudo com aspecto fresco e os mais sensíveis, à noitinha, com frio. Para o meu espanto, mesmo olhando a previsão do tempo acabei usando mais casacos em Belém que bermudas e mais tênis que sandálias. Culpo os onipresentes aparelhos de ar-condicionado.

Pupunha no Mercado Ver-o-Peso

Seria mais pertinente mesmo se cada vez que se falasse em "tacacá" – e se fala muito em tacacá antes de se chegar a Belém – a língua engrossasse como a goma de tapioca que fica ao fundo da tigela ou estalasse na dormência do jambu, que é para nós, os mal viajados, prestarmos atenção em outras coisas ao desembarcarmos na tepidez de Belém. Na fala mansa do povo, por exemplo. Nos seus olhos brutos, secos, rasgados indigenamente. Hipnotizantes. Fortes. No nariz largo da miscigenação (indígenas, africanos, europeus), na boca cujo traço sempre é uma curva aberta voltada para baixo, como uma rede de ponta-cabeça. São pessoas cuja História está impregnada nos genes e nos hábitos, que falam sobre a data de fundação da cidade ou da receita de arroz de pato e tucupi com a mesma entonação simpática, de quem quer fazer o viajante compreender – e também reafirmar – o que é ser belenense. O que os faz tão únicos e envolventes, o que os distingue do restante do Norte; assim como o sulista não quer ser chamado de gaúcho, nem o nordestino, de baiano. E não conseguimos compreender de imediato, pois as informações são muitas, e isto os diverte imensamente. Não se completam 24h na cidade sem que um habitante lhe pergunte o que tem achado de tudo até agora: do povo, das construções, da comida, do clima, do engarrafamento. São pessoas curiosas, de fala lenta e introspectiva, como se estivéssemos espiando seus pensamentos. Dificilmente olham diretamente para o interlocutor. Vagueiam o olhar ao redor, entre a vigilância e a distração. E quando são ouvintes, quanto mais surpreso e encantado o turista estiver, mais orgulhosos ficam. A curva da boca sobe numa aprovação à sua visita: uma rede estendida em sua homenagem.

Mercado da Carne no Ver-o-Peso. Detalhe pra foto de mulher semi-nua ao lado dos cortes.

Satisfeitos com a cidade que constroem dia a dia, os taxistas, os guias, os atendentes de hotel aconselham: "Volte no Círio de Nazaré, para ver que festa linda. A cidade se transforma". A festa é só em outubro, mas os sinais estão sempre presentes, como que abençoando o cotidiano dessas pessoas. Por cima das ruas, uma estrutura de metal estampa a imagem estilizada de Nossa Senhora com Jesus no colo, séria e vigilante. Belém, na verdade, chama-se Santa Maria de Belém do Grão Pará, uma homenagem ao catolicismo – é de praxe que todas as honras sempre sejam ao colonizador. Do indígena, ficaram os costumes alimentares, síntese máxima da cidade. É claro, pode-se voltar na época do Círio e ver a paixão de um povo pela redenção e milagres, mas conhecer Belém pela boca é um passeio sempre disponível e mais justo historicamente.
Tomemos o peixe como exemplo. Quando era fruto da pesca para subsistência, era quase sempre moqueado, ou seja, assado em brasa lentamente envolto em folhas de bananeira ou outra, como o vindicá, um arbusto gigante ornamental. No mercadão, os peixes são vendidos limpos, inteiros ou em pedaços. A posta ou o filé pode ser de pirarucu, gó, pintado, tambaqui, tucunaré ou filhote. Cada um deles tem uma textura e um sabor próprios, podendo ser preparados na brasa, cozidos, assados em forno convencional ou (o horror, o horror!) à milanesa ou apenas fritos. São peixes de água doce que precisam ser retalhados pelo feirante do Mercado do Peixe, dentro do Mercado Ver-o-Peso. Bichos grandes como o filhote e o pirarucu, que podem chegar a pesar mais do que um homem adulto, passam pela faca dos peixeiros inúmeras vezes e como destino têm as melhores mesas.

Açaí com farinha e pirarucu frito

É fácil encontrar filés de gó e outros peixes mais baratos, fritos diariamente em qualquer um dos boxes de alimentação do Ver-o-Peso, servidos com uma tigela de açaí batido e uma porção de farinha d'água – amarela e granulada grossamente – ou a branquinha tapioca, parecendo um isopor despedaçado dentro de potinhos de plástico. O sabor do açaí é uma mistura do amargo do abacate e textura de mingau. A farinha, arenosa e dura. O belenense come da seguinte maneira: polvilha generosamente a farinha por cima do açaí e com uma das mãos pega o peixe frito. Na outra, uma colher. Abre a boca e coloca uma colherada de açaí com farinha e um pedaço do peixe. Mastiga os dois juntos e estala os beiços em aprovação: "Égua! Iss'aqui é bom demais!" A sequência é repetida até o fim, no ritmo da fome. "Não ofereça açaí a um belenense se for menos de meio litro. Vai ofender o caboco", repete a guia turística, enquanto observa vinte brasileiros que até então só haviam comido polpa de açaí congelada. O amor do paraense pelo açaí chega a doer de ciúmes quando lembram que os vizinhos dos estados do sul e sudeste comem a polpa processada com granola e banana – e não aceitar uma tigela de açaí pode ser uma desfeita tão grave quanto adicionar açúcar no lugar da farinha. Se comer, faça o favor de gostar porque, como em toda paixão, os limites entre o ciúme e o orgulho nunca estão bem delimitados, oscilam de acordo com a maré.
Mas singram por essas águas outros olhares sobre a cozinha amazônica. Quem guia com maestria o barco atualmente são dois irmãos que mal completaram 26 e 24 anos e tocam um restaurante há dois. Remanso do Bosque é o lugar, considerado o 38.º melhor da América Latina segundo a revista Restaurant. O irmão mais velho, Thiago Castanho, foi apontado como um chef promissor, em quem o mundo deve manter o olho. A atenção já está sendo dada. Durante os cinco dias que estive em Belém, na primeira semana de abril, Thiago estava em Portugal para participar do Festival do Peixe e mostrando aos lusos os preparos com o pirarucu brasileiro.

Vista de Belém do quinto andar
No menu degustação do Remanso do Bosque, a sequência de doze pratos apresenta a floresta inteira rearranjada em louças de barro, de vidro e de cerâmica. O filhote na brasa, assado em folha de bananeira e servido com um tartare de banana é o mais elegante e resume a Belém gastronômica, atualizando a tradição do peixe assado do Remanso do Peixe, restaurante dos pais que começou há mais de uma década. Ver sua cor dourada pela brasa, sentir seu sabor delicado e a firmeza da carne é o melhor cartão-postal gustativo de Belém. É raro encontrar alguém que não o venere. "Não esteve no Pará quem não comeu filhote" e segue-se falando do tacacá, da farinha de aviú (um camarão miúdo desidratado), da maniçoba, do pato no tucupi e da tapioca. O estômago chega a parar só de ouvir. Outra dobradinha de peixe-com-banana servida no menu degustação é o pirarucu defumado com nhoque de banana-da-terra e farofa de castanha-do-Brasil, também presente na sequência dos irmãos Castanho. Pode ser lido como uma vitória no seu sentido mais prosaico: estando no cardápio, desafia o paraense, que é louco por pirarucu seco, a comer um peixe envolto em azeite e com tempero leve, muito diferente do encontrado no Ver-o-Peso, onde, curtido, exala um cheiro áspero e viscoso.
Toda a essência do paladar paraense está lá, coração da cidade com 317 anos completos e que ostenta o título de maior feira livre da América Latina. Fechado depois das 17h, ele vira o playground da miséria, onde estão mendigos e seres tristes rondando os bares. De um lado, uma avenida congestionada com vans de portas abertas, ônibus abarrotados e carros buzinando. Do outro lado, agitam-se águas cor de caramelo do rio Guamá e uma tropa de urubus prontos para devorar o que estiver sobrando na areia. Quando a maré sobe, as águas da Bacia de Guajará inundam as ruas, os atracadouros, as escadarias, as ilhas. Algumas horas depois, o rio volta para o seu lugar e Belém sai do seu banho tal qual um menino do igarapé: cabelos lambidos para trás e de olho no céu. Vejo Belém pela janela da van que me leva do aeroporto ao hotel. Choveu tanto no dia anterior que não há vazão das ruas, e sim correnteza. O vento força os pingos para todas as direções. O belenense, pacato, caminha de sandálias ou chinelo debaixo das marquises ou aguarda, protegido, a fúria ir embora. Os guarda-chuvas não aguentam, contorcem-se, viram-se do avesso. As árvores se agitam como se acenassem – são mangueiras e outras espécies frondosas que dão boas-vindas com sua folhagem verde escura. Belém, afinal, é natureza, como não poderia deixar de ser uma cidade que já foi apenas a Amazônia. Parece que vai mergulhar novamente.
Se chover, o belenense se mete por dentro do Ver-o-Peso, experimentando as farinhas e camarões salgados sem pudor. "Deixar eu dar uma prova", anuncia, enchendo uma das mãos. Se a farinha de Bragança (amarelo clara, graúda e dura), por exemplo, estiver mole, cospe tudo no chão com estardalhaço e seguem para a próxima saca. Aponta para a farinha d'água e solicita: "Essa tá boa, mano. Me dá meio litro". O feirante, com uma caneca em punho, mede de olho, despeja o conteúdo em um saco plástico e entrega ao cliente. "Dois reais", cobra o feirante, para em seguida se acocorocar ou sentar em uma velha cadeira de praia e olhar a chuva desenhar no rio. Não há necessidades de balanças, e sim de mandioca. "A gente não vive sem farinha", me explica a uma guia informal que me levou para passear em um fim de tarde pela região do Comércio e Cidade Velha. Todo belenense é assim: come farinha com o açaí amargo, farinha com peixe, farinha com fruta, farinha com tudo. Farinha para petiscar. Farinha pra fazer beiju. A farinha é a segurança alimentar do bicho urbano; é ela que impede milhares de estômagos de roncar.

O cacau está presente na grande Belém e também no interior do Pará

De outra farinha, esta incomensurável, se faz o nome desta cidade úmida. Belém, em hebraico, significa "casa do pão", uma referência cristã ao alimento espiritual, Jesus. O chamado "pão da vida" observa no colo de Maria o cotidiano de um povo que encontra sua catarse em outubro, durante o Círio de  Nazaré. Não foi nesta Belém que nasceu Jesus há mais de dois mil anos, mas é também nela que ele é celebrado e solicitado – mas não mais que sua mãe. Para Maria, todas as preces. O povo entrega a ela votos de cera, de plástico ou de madeira, à venda todos os dias no Ver-o-Peso. São reproduções de pernas, pés, mãos, cabeças e outras partes do corpo cujas mazelas – cânceres, úlceras, doenças degenerativas –, acreditam, são curáveis também pela fé. O estoicismo do belenense talvez seja uma das características mais fortes da mistura de povos. Aguentar a devastação do colonizador quando ele chega determinado a saquear, matar, usurpar e catequizar. Aguentar as intempéries da nova terra quando se imigra -- "o que cresce nesse solo?", "o que mais posso comer?" Aguentar, diariamente, a miséria nas ruas e vielas de Belém, a violência resultante da desigualdade, a lida diária na lavoura ou no comércio. Haja farinha. Haja sol. Haja peixe.
A maior população imigrante é de japoneses, cujas colônias estão no interior do estado. Tomé-Açu, ao sul de Belém, é uma cidade pequena como deve ser: ruas ainda sem asfaltamento, mosquitos e maruins a postos para morder sangue novo e a agricultura como principal atividade econômica, com cooperativas lideradas pelos nipônicos. O Oriente é um traço leve no rosto do município, que só é percebido pelo contraste entre o seu jeito metódico com o laisser-faire dos paraenses: o que tiver que ser comido, será semeado e o que estiver plantado, será colhido. É uma economia de subsistência: nenhuma raza de açaí é retirada do pé se não houver uma barriga roncando (ou a necessidade de fazer dinheiro imediatamente) –, uma particularidade que ultrapassa a fronteira dos municípios interioranos e sobe até encontrar seu limite na orla da praia. O ribeirinho, a metonímia da Amazônia, não passará fome se depender do seu quintal.



Se não me engano, este é o rio Acará-mirim, no interior do Pará

4 comentários:

  1. Perfeito! Parabéns pelo post.
    Você retratou a cidade de uma maneira que muitos belenenses não conseguiriam.
    Espero que volte sempre.

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    1. Obrigada, Claudio! Espero voltar em breve. Obrigada mesmo pelo retorno. Um abraço e volte sempre também.

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  2. Belo texto!Nunca vi ninguém retratar a cidade dessa forma,super original e poética como uma verdadeira papa xibé.Só ressaltando que estamos no Brasil isso faz com que muitos jornalistas blogueiros entre outros usam o termo CASTANHA DO BRASIL quando na verdade o nome seria CASTANHA DO PARÁ.Parabéns!

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    1. João Bocão, que nome sensacional o seu. Obrigada pela mensagem, adorei lê-la (ainda que com dois dias de atraso). Optei por castanha-do-Brasil porque é como estava no cardápio do Remanso do Bosque. No dia a dia falo castanha-do-Pará porque acho muito mais sonoro. Obrigada mais uma vez pelo tempo dispensado em ler um texto meu. Fico feliz que tenha gostado. Um abraço e volte sempre!

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