30 de junho de 2014

meu texto na quincas: o sonho do granito próprio




A segunda edição da revista colaborativa Quincas, editada e criada pela lindamagraeruiva Giovana Moraes Suzin, saiu hoje. E tem um texto meu nela. Antes havia um trecho neste post, mas transcrevo tudinho aqui:

O sonho do granito próprio

O que começou com um artifício para economizar dinheiro virou uma obsessão. O plano era: fazer os mesmos pratos que minha mãe preparava quando eu morava com ela, em uma quantidade que rendesse mais que uma refeição e usando os ingredientes que eu tivesse em casa. Acabou ficando mais sério que isso; com o passar dos anos comecei a cozinhar novas coisas e perceber que poderia ser um bom hobby. Eu precisava de um hobby. Eu precisava comer pelo menos três vezes por dia. Resumindo: sete anos depois, vejo que me tornei uma pessoa monotemática. Chata pra cacete. Passo horas falando de comida. Garimpo livros sobre o assunto (gasto um rim neles, se preciso). Espalho pela casa receitas coletadas em post-its, blocos de anotação, cadernos velhos, salvo documentos do Word em qualquer pasta. Quando começo a cozinhar, dificilmente os consulto. Nem sempre encontro as cópias, nem sempre abro os livros. Cheguei a um ponto em que reconheço que a cozinha é o lugar que mais sinto necessidade de estar – talvez por isso eu semeie anotações por aí – e que preciso aprender a dividi-la com outras pessoas. Somos três usando a mesma, depois de cinco anos morando sozinha em apartamentos pequenos. Uma cozinha desconhecida, ainda por cima, que nos intimida com seu piso alvo e rejuntes ainda sem mofo.


Nunca é fácil deixar a cozinha amada para trás (imaginar que ela será amada por outrém então… me mata). E é menos fácil ainda conseguir amar outra cozinha imediatamente após a mudança, por mais perfeita, limpa e reluzente que ela seja. Enquanto se procura uma nova casa, qualquer metro quadrado com granito enche os olhos. Meu bom Jesus, granito! Gra-ni-to! Finalmente terei espaço para abrir massas com aquele rolo de macarrão que nunca usei! Nunca mais vou sentir falta da minha antiga cozinha apertada com um paneleiro e três gavetas, pensei. Na nova, além do granito, há um armário espaçoso, uma bancada à parte com tomadas. Fórmica novinha. Já pensou, mais de uma tomada por parede? Ai, até me palpita o coração. Assinado o contrato, a antiga cozinha se desmonta. A nova ainda está na caixa. Nenhuma estante parece boa para deixar a batedeira. Que inferno essa porta que fecha sozinha. Como faço para alcançar aquela estante? Depressão. A nova cozinha é o triplo do tamanho da antiga e não faço a menor ideia do que fazer com tanto espaço. Me sinto idiota por me abalar com isso e parece que não vou superar tão cedo. Deito em posição fetal. Choro antes de dormir. Odeio mudanças. Meu subconsciente começa a me torturar. Talvez eu não tenha estrutura emocional para amar outra cozinha.

Estou em um galpão imenso, com várias panelas fundas ao meu redor, muita gente entre elas e eu não consigo sair do lugar. Enfio a cabeça em uma das caçarolas e puxo com as mãos o vapor, fazendo movimentos circulares para que ele se insinue até mim. Trago-o ao meu nariz e respiro fundo. Não sei o que é. Nenhum aroma que conheço se parece com aquilo. Não consigo ver nada. O lugar está tomado por um monte de fogareiros que de repente ficam mais altos que eu e vejo minha cara afobada no reflexo da panela. As pessoas continuam atrapalhando a passagem e a fumaça aumenta. Fico atordoada. Com uma colher que não sei de onde veio, mexo o conteúdo de uma delas furiosamente e alguém grita uma ordem em uma língua que não conheço. Imagino que o que temos que fazer é falar em voz alta o nome de todos os ingredientes que conseguimos identificar pelo cheiro – e não podemos provar nada. Desespero. Paralisia. Quero chorar e não consigo. O sentimento de impotência me faz tremer e tento pedir ajuda para quem está em volta. Ninguém me vê. Um barulho de conversa estoura e percebo que todo mundo sabe o que há em suas panelas, menos eu. Sou um fracasso. Eu sabia que iriam perceber que não sei cozinhar. O que estou fazendo aqui? Decido arriscar o nome de qualquer ingrediente básico em um ensopado e brado: “Cebola!” “Cenoura!” “Alho!”

Acordo desesperada com medo de ter perdido a hora ou queimado algo. Minha boca está seca, não consigo saber se acordei porque gritei ou se é só porque preciso fazer xixi. Levanto meio grogue, calçando as pantufas e tateando no escuro. Mal passou das três da manhã. Acendo a luz, aperto os olhos e fito o bebedouro. Gostaria de morar dentro dele. Ser uma bactéria. Ou viver de fotossíntese. Qualquer coisa que não me obrigasse a provar que sei cozinhar. Odeio ter pesadelos. Volto para a cama. Odeio levantar de madrugada. Que inferno, minhas preocupações são tão idiotas. Que porra de cozinha grande. Tenho que dar uns vinte passos a mais para fazer o trajeto do meu quarto até ela. Quero ser um cachorro. Um mosquito. Uma minhoca. Nunca mais quero cozinhar. Merda, preciso pegar no sono.

Meu primeiro impulso ao me mudar para a cozinha gigantesca foi me enfiar nos armários gigantescos ao lado da geladeira gigantesca. O cheiro era de madeira e fórmica recentes, ninguém havia passado as mãos nessas estantes antes de mim, fantasio. Eu até caberia, mas não executei o plano. Tentei rolar pelo granito da pia, no entanto, e quase abracei a torneira. Eu estava genuinamente feliz em trocar uma cozinha velha por uma cozinha nova, mas sua assepsia me oprimiu assim que a mudança terminou. Uma vez, quando morava em outro apartamento, escrevi um breve texto para meu blog falando como seria minha cozinha dos sonhos. Não é nada parecida com a que estou atualmente. Seria uma coisa rústica, cheia de panelas e louças à mostra, com um espaço para minha horta bem próximo ao fogão e com uma trança de cebola pendurada – pelo menos essa parte eu consegui concretizar. Ela está longe de ser aconchegante e colorida, é voltada para o sul da cidade e um prédio à sua frente a deixa escura, com uma luz horrível para tirar fotos. Mesmo assim, é minha cozinha. É uma cozinha invejável, planejada, de novela. Preciso fazê-la me aceitar e tornar real a impressão que os outros têm de nós duas: de que somos um par perfeito.

Estamos nos entendendo aos trancos. Olhando de um certo ângulo, vejo que o granito já está machucado, com vincos na pedra que demonstram o mau-trato ao qual a submetemos. Os azulejos das paredes estão manchas de mãos engorduradas. O canto do piso está encardido. Acabamos com a assepsia, agora precisamos de alguém para reverter essa situação medonha que criamos. E ela é temperamental, a cozinha. Veja, eu lavo a louça de um jeito destrambelhado. Uma gota de água pinga do meu braço e cai fora do tapete. Passo um pano para secar e ela vira uma mancha preta, como uma graxa. Bufo. Jogo desengordurante, esfrego bem. Falo em voz alta: ‘que bela bosta’. O piso parece que fica limpo a contragosto. Me assalta um pensamento que estou tentando evitar há dias. Uma noite, encolhida na cama em estado alfa, imaginei que há uma força sobrenatural me desconcertando de propósito e que isso combinaria perfeitamente com os barulhos estranhos que a geladeira faz no meio da madrugada e com o vento encanado que assovia pela fresta da janela. No meu delírio, um ótimo cozinheiro morou neste apartamento, morreu de forma trágica (com certeza na cozinha) e quer me ver louca mamando uma bisnaga de maionese Hellmann’s. Não vou ceder. Vá fritar almas à milanesa, seu filho da puta. Me deixe sã. Me deixe desfrutar dessa cozinha linda e alvíssima, fruto de uma reforma maravilhosa feita logo depois que você morreu de botulismo. Vá embora, seboso.

E então, os pesadelos. Faz meses que não entro em um supermercado e inexplicavelmente estou em uma gôndola suja de uma rede de supermercados populares escolhendo um pacote de macarrão. Um monte de gente passa empurrando e pegando vários pacotes enquanto eu titubeio entre duas marcas. Decido levar um de sêmola, mais caro e com uma embalagem bonita. Olho pro lado e absolutamente todas as pessoas do meu dia a dia estão paradas do outro lado do corredor me julgando com o olhar. “Nossa, Flávia, sério que você vai levar esse aí? Qual a diferença entre comer este aí ou um macarrão mais barato?”. Fico muito abalada. Quero a aprovação dos meus amigos. Quero que eles deem tapinhas nas minhas costas e me congratulem pela decisão. Não consigo verbalizar nada e todo mundo me dá as costas e vai embora. Afinal, não há motivos para continuarem a sair comigo, porque sou uma fresca. Acordo me sentindo culpada por não ter escolhido uma marca mais barata. Vou benzer minha cozinha. Vou fazer terapia.

Recobro o ceticismo: que sentimento besta, o que está acontecendo comigo? Sigo resoluta de que preciso tocar minha vida como se a loucura da mudança não tivesse me afetado. Há muito o que fazer, muito a escrever e muitas caixas de papelão cheias a ignorar. Escrevo como se não houvesse amanhã. Meu irmão aparece no escritório envolto em sua toalha de banho com um semblante desconfiado e intrigado:

- Meu, que cheiro é esse?!
- Que cheiro?
- Aqui perto da cozinha. Indo pra sala.

Sem tirar a bunda da cadeira, falo:

- Não senti nada.
- Parece mijo.
- Credo, como assim?
- Sei lá, lembra mijo.

Levanto e vou até a cozinha. Tento cheirar tudo: o batente da porta, o armário, o lixo orgânico, o chão. Pergunto se é o lixo, ele diz que não. Pergunto se vem da janela. Também não. Ele vira as costas e sai coçando o nariz:

- Vai ver é algum tempero que vocês usam.

Ou mijo do além. Fico sozinha na cozinha olhando ao redor, certa de que uma poça de xixi vai se materializar a qualquer momento e uma gargalhada vai ressoar. Nada acontece. Volto para o computador e termino as metas da noite. Minhas pernas doem e minhas costas também. Parece que levei uma surra. Resignada, vou fazer o xixi que estou segurando há quase uma hora. A quantidade de caixas que ainda há para abrir não é muita, mas a mudança me cansou muito antes do primeiro casaco empacotado. Estou largada na privada, com preguiça de me mexer e imaginando que bom seria se eu automaticamente estivesse de banho tomado na cama, lendo qualquer coisa para dormir logo ou tomando um chá e fazendo palavras cruzadas. Viajo olhando os azulejos psicodélicos à minha frente e encaro a última caixa meio vazia, com o resto da mudança. Leio: aspargos brancos inteiros. Penso em quantas vezes comi aspargos: menos de uma dúzia. Penso em quantas receitas preparei com aspargos: nenhuma. Penso nas minhas experiências frustradas em textos, panelas, fotografias. São incontáveis. A decepção é inerente ao ser humano e preciso aprender a lidar com isso. Porque não importa se a pessoa vive pelas panelas, a cozinha sempre terá algo a ensinar.

O imprevisto vai mostrar que você ainda é um lascador de pedras, um primata esfregando tocos de madeira para fazer faísca. Que não adianta passar metade da sua semana com a barriga no fogão, você sempre vai errar feio – na proporção, na combinação de ingredientes, no ponto de cozimento, no excesso de condimentos ou em uma sequência confusa de etapas executadas. Naquela noite, tive um sonho kafkiano, em que eu tinha que entrar em dezenas de salas de aula de primário com cartazes e fogareiros em cima de carteiras. Não lembro o que tinha que fazer, mas havia um sentimento urgente de fugir dali. Era difícil respirar. Havia gente caçando um grupo de fugitivos. Antes de acordar, alguém me deu uma panela pequena, amarela, velha e sem tampa. Empunhei a panela como um amuleto em frente ao meu peito enquanto corria abaixada entre os corredores. Estava certa de que ela seria muito útil para dar como um tacape na cabeça de alguém ou me proteger de balas de fuzil – um pesadelo com final feliz, finalmente. Mas não faço ideia do que isso significa. Meu palpite é que estou fazendo progresso e que posso desmarcar o exorcista.
***

Leia este delírio no link original clicando aqui.

2 comentários: