26 de agosto de 2014

um exercício de suavidade em forma de risoto

Enlouquecendo na salsinha

Sinto que não deveria cozinhar toda hora. Quanto mais se pratica uma coisa, melhor me sairia nela, por supuesto!, mas é passível de virar uma coisa enfastiante. De ser feita no piloto automático. E tudo o que não quero é fazer algo sem vontade. Cozinhar é assim. Tem dias que é um tédio, mas também tem dias que eu fico vidrada em uma coisa e só vou pra cozinha quando já executei a ideia várias vezes na minha cabeça.

Por não ter feito esse exercício como deveria, me frustrei com a biomassa de banana verde. Joguei fora no mínimo umas cinco bateladas. O cheiro era azedo. Tinha umas coisinhas parecidas com verrugas em cima do creme branco que é a biomassa e a textura não era cremosa, mas uma superfície viscosa difícil de furar com o dedo. Garrei ódio e quis me vingar.

Receita funcional? Não. Vou é fazer um creme salgado, pensei. Entendi onde errei (e se não tivesse entendido seria muito mais burra do que aparento): precisava fazer um creme e não uma pedra de massa. Colocar mais água na hora de bater, parece tão óbvio. Do jeito que eu estava fazendo  – pingando água só o suficiente para não queimar o liquidificador – a mistura endurecia rapidamente na geladeira e podia ser cortada como um queijo. Eu não tô mais acostumada a comer queijo (podem levantar os queixos agora), então não fazia nada com aquela massa, que nem temperar eu tinha temperado. Aí quando eu lembrava de usar estava impossível de adicionar a alguma coisa (não dissolvia) ou já tinha estragado.

Biomassa de banana verde temperada

É uma merda jogar comida fora. Eu fico putíssima, meu namorado fica putíssimo, eu me recrimino por comprar ou preparar a mesma coisa que joguei fora na semana anterior e o ciclo vicioso de culpa e tentativa de redenção vira apenas o sentimento prolongado de que fracassei em mais uma coisa. "Flávia, você deveria relaxar. Todo mundo erra". Verdade. Mas pra mim cada bobagem dessa parece uma coisa impossível de esquecer. Jogar fora uma biomassa de banana verde me deixa tão ansiosa e irritada quanto uma cagada maior na vida. Eu só sei reagir assim porque cada um tem um temperamento, um jeito de lidar com as coisas (e sei também que é moldada pelas nossas limitações). É como se eu tivesse uma perna mais curta que a outra e me mandassem parar de mancar. Ou como se eu fosse estrábica e me mandassem olhar "direito". Eu estou vendo as coisas perfeitamente. Eu estou transformando frustrações em coisas mais agradáveis. Como no caso deste risoto, que leva biomassa de banana verde.

Esta é uma forma de combinar vários ingredientes pungentes e temperamentais, aqueles facilmente odiados por quererem sempre ser o protagonista do prato – exceto a abobrinha, tão cândida, que empurramos vez ou outra pra frente do palco e que nem sempre se sai bem; e bem ou mal, a culpa é nossa, que a colocamos lá. Aqui, tentei deixá-la à vontade. Se fizerem este risoto, me contem como ficaram todos esses personagens juntos na sua panela.

Não parece, mas tava bom


biomassa de banana verde
lavei bem três bananas-pão (são gordas) verdes, firmes e bem fechadas. fervi água e despejei sobre as bananas na panela de pressão até tapá-las. cozinhei-as na pressão máxima por oito minutos (contando a partir do momento em que a panela começa a liberar vapor) e desliguei a panela. deixei a pressão sair sozinha. ou seja: não forcei com o garfo. deixei a panela quieta por uns 30 minutos até ela liberar totalmente a pressão. aí tirei-as da casca e bati com 250 ml de água filtrada no liquidificador. guardei num pote na geladeira. pro creme branco desse risoto, eu usei só quatro colheres de sopa dessa massa, o equivalente a 1/3 do total.


creme branco de biomassa de banana verde com alho e tomate seco
2 dentes de alho esmagados e picados bem miudinhos
1 tomate seco (usei seco mesmo, sem óleo, mas pode usar um hidratado) picado em cubinhos pequenos
azeite de oliva para refogar
sal
4 colheres de sopa de biomassa de banana verde

refoguei o alho e o tomate seco no azeite de oliva até ficarem macios. acrescentei a biomassa de banana verde e acertei o sal.


risoto suave de abobrinha com nozes
1/2 cebola roxa picada em cubinhos
1/2 xícara de alho-poró em rodelas finas
1/2 xícara (transbordando) de arroz arbóreo – rende duas porções
vinho branco
água fervente (é preferível um bom caldo de legumes; pelo menos uns 500 ml, calculo)
1 abobrinha em cubinhos
4 colheres de sopa de creme branco de biomassa de banana verde
1/4 de xícara nozes bem picadinhas + um punhado de nozes quebradas grosseiramente para finalizar
salsinha para finalizar
azeite de oliva para refogar
sal e pimenta-do-reino

Ferva a água (ou o caldo de legumes, se você tiver). Refogue no azeite de oliva a cebola roxa com um pouco de sal para ajudar a soltar líquido. Depois, coloque o alho-poró e o arroz e mexa até secar um pouco. E então, um fundinho de vinho branco, o suficiente para quase tapar o conteúdo. Vai evaporar relativamente rápido e os aromáticos vão perder um pouco da cor – começa com um roxo vivo e um verde esbranquiçado e vai ficando tudo meio rosado, num tom meio pastel. O cheiro perde a agressividade, rola uma conversa entre a cebola e o alho-poró. Talvez seja redundante, mas é boa.
Acrescente o líquido fervente aos poucos, apenas para não grudar na panela. Mexa sempre, assim o arroz solta seu amido e cria uma unidade. Siga colocando água até o arroz estar praticamente pronto. Aí, coloque a abobrinha, misture e continue mexendo para não queimar. Pingue mais água se preciso e acrescente o creme de biomassa, as nozes picadinhas e tempere com pimenta-do-reino. Sirva com salsinha.


***

Na hora em que estava preparando o prato não pensei em fazer isso, mas depois que a louça estava limpa imaginamos que fazer um pesto de salsinha com nozes (moídas à mão, não no liquidificador!) ficaria muito bom para finalizar a receita. Aqui em casa estamos viciados em um molho de pimenta chamado "Dragon's bite", da Rom's Sauce, feita em Curitiba, e que combinou muito bem com a dupla salsinha & nozes e seria perfeita para temperar o pesto.

5 comentários:

  1. Coloco abobrinha em tudo e ela raramente decepciona haha. Fiquei com água na boca. Beijos, Flá!

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    1. July, que bom te ver por aqui! Eu também adoro abobrinha. Se fizer o risoto, me conta como ficou!

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  2. querida, acabei de sair do ciclo vicioso da culpa-frustração na sexta tentativa de pão de queijo vegano: eu te entendo! mas culpa e comida não deveriam passar perto nunca, então vou atrás das bananas em breve, porque tenho desejo incontrolável de fazer um gnochi de biomassa, e teu risoto me deu toda uma coragem. pra usar os 32/3 da biomassa que sobrar, é claro! beijo!

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    1. Fabiana, adorei a ideia do nhoque (não consigo gostar da grafia original, hehe)! Vou querer a receita. ;)

      Beijo, apareça mais vezes!

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  3. Sou como a July, a louca da abobrinha! A danada fica boa em tudo quanto é coisa.
    Tô intrigada com essa biomassa de banana verde, Fla, e acho que não seria corajosa o suficiente para fazer risoto com ela. Sou bundona, flor. :)

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