28 de fevereiro de 2015

treinando para as olimpíadas: comida de obstáculos

Graças ao meu fígado burro eu (não sei, estou chutando termos e processos) tenho um problema em metabolizar gorduras e carboidratos, de modo que meus exames de sangue estão sempre alterados. É como se todas as minhas refeições fossem costela com batata frita seguida de pudim de leite condensado. Há 50 anos.

Quando os profissionais da saúde olhavam os resultados diziam coisas como "se você não se cuidar vai ter um AVC aos 30 anos" (obrigada, médico da academia, por me traumatizar em 2009). E então eu fiz o que muitos fazem quando não querem lidar com um problema como este: parei de fazer exames de sangue. Foi bom enquanto durou.



Voltei no ano passado a acompanhar minha saúde hepática por exames e não fiquei surpresa ao saber que nada mudou. De 2008 – quando descobri que tinha o colesterol de uma senhora de 70 anos que nunca ingeriu fibras – pra cá, minha alimentação mudou muito, ficou menos universitária porém ainda com mistureba e loucuras por macarrão, risoto e batata. Bang. O colesterol alto até que deu pra ignorar, mas os triglicerídeos estavam muito além do valor máximo de referência. Um pouco mais que o triplo, pra ser honesta. Que bela chicotada levei da própria língua. Valeu, genética! Framboesa de ouro pro meu DNA.

A última ceia: este foi meu café da manhã depois do último exame de sangue. Ignorando completamente o que viria uma semana depois: sai pra lá, carboidrato.


Criei vergonha na cara e comecei a fazer acompanhamento com nutricionista desde a metade do ano passado. Três ou quatro consultas depois e algumas mudanças na alimentação, ela manda a real:

– Já que você não quer ir ao endócrino e tomar remédio para baixar, vamos tentar uma alimentação bem restrita por pelo menos três meses. Pra ver como seu corpo responde.
– Ok. Hit me.

Eu pedi e levei uma coça. Três frutas, no máximo, por dia. E uma de cada vez, nada de salada de frutas. Proteína à vontade. Mais que à vontade: é obrigatória nas três refeições principais, em porções muito maiores que o carboidrato. Carboidrato, aliás, de leve. Arroz e macarrão integral. Nada de batata. Pouco de aipim, batata-salsa e coisas do tipo. Tchau, três-espigas-de-milho-verde-de-uma-vez-só. Oi, barrinha de cereal, granolas e salada. Vinde a mim as fibras e as leguminosas. Pra todos os dias: mastigar devagar. Beber muita água para não ter picos glicêmicos (e chorar para não sobrar tudo pro rim). Que delícia é viver sem dois enormes pratos de macarrão numa sexta à noite vendo filme e ouvindo a chuva.

Comemos bifum loucamente antes de saber que eu precisava abandonar os refinados.

Aí o que eu fiz? Fiquei como um pêndulo entre a neura de não dar uma mordida a mais numa banana e – digo para ilustrar, não precisa acreditar se não quiser – comer uma pequena coxinha no café da manhã. Assim, como quem não quer nada. Tava ali no meio do homus, nem vi, sabe. Foi sem querer. Não convivo com a culpa, apenas tento compensar em situações muito legais de se viver, como quando você, no meio do expediente, pega sua barrinha de cereal e senta na mesa em que as pessoas comem salgados recheados, torta de limão com suspiro, sanduíches de pão branco e cappuccino. Salivo só de lembrar. Um colega, muito solícito, me ajudou a enganar o cérebro: "hmm, esse macarrão à carbonara parece ótimo, Flávia". Indeed. Branco e dourado, maravilhoso. É o melhor macarrão em barra que já provei.

Imagina que louco você estar comendo um sanduíche de pão integral com homus e salada e de repente você tá mastigando uma coxinha? Nunca aconteceu comigo.

Depois daquele dia lancei o conceito "comida de obstáculos" enquanto comia um mjadra gelado (o micro-ondas quebrou e não queria esquentar três colheres de sopa de arroz com lentilha numa panela). Cortei algumas rodelas de tomate, rasguei muita rúcula e alface por cima do tupperware e tasquei um azeite. Comecei a comer e quando avistei o mjadra sorrindo para mim, voltei à cozinha e repeti a montagem. Chego ao fim da primeira semana sentindo a diferença: como menos, reclamo um pouco mais, mas meu mau humor passou um pouco. Me sinto mais disposta. Comecei a (tentar) correr. Sinto que tudo é possível, até evitar um prato de macarrão fora de hora. Aprendi a dizer adeus.

Tem gente que não sabe dizer adeus. Site dos Menes <3

E também comecei a fazer todas aquelas receitas meio fitness, meio low carb que eu vejo no Instagram. Vou poupá-los das fotos, mas não da descrição. Por exemplo, o chia pudding que estou comendo neste momento. É um negócio feio, mas foi a forma que achei para fazer uma mistura com coisas de granola sem ser uma granola propriamente dita: uma colher de sobremesa de chia deixada de molho em duas colheres de água até ficar gelatinosa. Aí misturei um pouco de semente de girassol, amaranto em flocos, quinoa tricolor (tão linda!), uma banana em rodelas e muita canela. Comi desejando colocar um pouco de açúcar de baunilha, mas vim aqui escrever este post. Sobrevivo sem sequelas.

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