31 de março de 2015

escreve mais, guria

Tô aqui tentando vencer todos os deadlines que se atravessam na minha corrida em direção à cama e como gosto de deadlines (viver gostar de sofrer de algumas maneiras; a minha preferência é o sofrimento laboral), assumi mais um. Mas este foi diferente: dei pulinhos de alegria e aniquilei-os muito antes de me assombrarem de madrugada. Tudo isto para dizer que em 31 de março comecei a publicar crônicas no caderno de cultura do jornal Gazeta do Povo, onde trabalho atualmente. Falarei de comida, porque sou monotemática. Reproduzo abaixo a estreia, que está publicada originalmente neste link. O editor achou interessante esmigalhar meus três gordos parágrafos como se fossem versos de um poema, caso estranhem. Eu gostei do resultado, mas vou lhes dizer que ficaram parecendo amendoins em vez de uma lauta refeição. Pra não assustar os leitores logo no início, acho melhor ficarmos com um aperitivo.

Ilustração: Felipe Lima/Gazeta do Povo

A um passo do canibalismo

Quando eu era criança, acreditava que a orelha do meu irmão tinha gosto de peito de frango.



Lembro-me de um domingo especialmente tedioso em que eu corria atrás dele pela cozinha enquanto a minha mãe preparava o almoço.

Ele tinha uns dois anos e andava pela casa só de fraldas, com as coxinhas (hoje sei) parecendo as lapeanas de farofa.

Subiu em um banquinho para olhar nosso quintal pela janela: uma amoreira, um pouco de brita, gramado e talvez um lagarto tomando sol.

Eu tinha uns seis ou sete anos e me faltavam uns dentes de leite.

Cheguei bem perto e fingi arrancar um pedaço da orelha dele – do mesmo jeito que a gente finge que tira o nariz das crianças, colocando o dedão entre o indicador e o dedo médio – e comer, só pra ver como ele reagiria.

Choramingou.

Levei uma bronca e fui forçada a desistir do plano.

Anos depois, comi damasco desidratado pela primeira vez e tive a nítida sensação de mastigar um lóbulo de orelha, mas a pira passou quando alguém me disse que também lembrava cotovelo enrugado.

Recordações de infância são imprevisíveis, vêm tarde e às vezes são irrelevantes.

Não sei mais como foi o Natal de 1998, mas ainda vejo a minha avó colocar duas jaboticabas em frente ao rosto e fazer uma voz estranha, me dizendo: “Flá, olha aqui. Essa é você, tens uns olhões desse tamanho”.

Segurei o choro até a minha mãe chegar.

Ela não fez por mal, mas, pra mim, naquela época, bonito era ter olhos de safira (e não de comida, oras!) e até hoje como jaboticabas imaginando estourar glóbulos.

Fui uma criança secretamente sanguinária.

Na minha cabeça, goiabas maduras eram cérebros de hominídeos de outra dimensão que haviam parado inexplicavelmente nos galhos da árvore; rodelas de beterrabas eram fígados; um pedaço de palmito, o miolo de um osso.

Mas os bebês sempre me pareceram mais apetitosos.

A título de exemplo: repare na comoção que causa um pé gordo de bebê.

Todo mundo aperta, cheira, beija, esmaga e – gosto de pensar que não estou sozinha – fantasia passar um pouco de geleia naquela bisnaguinha com dedos e nhoc! Colocar pra dentro.

4 comentários:

  1. Então você gostaria de comer bebês???
    Comunista! hehehehehehe

    muito bom!

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    1. Pois é, Cauê, agora não posso mais negar. Fiz até um molho para acompanhar, veja só: bit.ly/molhocomunista ;)

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