16 de março de 2015

quem é você no jogo da vida?

Somos todos obrigados a dançar nessa ciranda maravilhosa que é a vida e, pelo menos uma vez por ano (estou sendo generosa), botamos um ovo choco. É nestas horas, meu amigo, que temos que "voltar a ser criança" e rir das situações estapafúrdias em que a maioridade nos coloca. Eu simplesmente odeio este conselho e não o sigo. Passam a infância inteira nos amolando para sermos mais responsáveis, mais pró-ativos, mais diplomáticos. Aí você cresce todo errado com um senso de responsabilidade do tamanho de um braço com elefantíase e querem que você volte a ser criança. Dá um tempo. Me deixa aqui no fráis* que já tô sem fôlego.

Uma galera medieval curtindo uns jogos infantis na tela de Pieter Bruegel

São estes momentos ridículos de mirar o ovo podre em frente da turma toda que dividem as pessoas entre as que sabem lidar e saem incólumes e as que gostariam de estar no sofá tomando vitamina de banana e não escondem sua decepção consigo mesmo. Vejamos quem é você neste degradante jogo da vida:

O vencedor de Imagem & Ação: deseja ser uma enciclopédia com pernas e ao menor erro que comete se martiriza para o resto da noite. Engasga com acepipes enquanto alguém pergunta "Qual a capital de Honduras?" do outro lado da sala. Não faz parte de nenhum time, mas mesmo assim grita: "TeguciGULP" e tosse até cuspir uma azeitona no próprio tênis.


Aquele que tripudia ao jogar War: é mais destemido e menos autoconsciente do que gostaríamos. É capaz de jogar seu ovo choco em alguém tão miserável quanto ele, sem perceber que foi ele quem fez a podridão por último (deveria aprender com o erro dos outros, mas é cego demais para isto). Ou seja: ganha a Ásia usando todas as peças de seu tabuleiro como carne de canhão e vence por poucos territórios. Na vida real, sem dados para jogar, age de maneira similar com os colegas e se alguém o ferra merecidamente, faz beicinho. Tem quem compre esse tipo de gente. Não passe a mão que este morde.

O introspectivo do quebra-cabeça de cinco mil peças: tem método para tudo, especialmente para separar as peças do céu em cinquenta tons de azul. Provavelmente transa de meias. Faz cronogramas, tabelas, tem despertador para qualquer atividade, TOC e não sabe fazer amigos sem fazer piadas (sem graça) antes. É inofensivo em se tratando de competitividade e precisa de ajuda para superar a autodecepção. Vamos ajudá-lo, oras.

O fofoqueiro do Cara a Cara: não pode chegar perto de alguém sem saber quando foi a última vez que a pessoa ovulou ou bebeu um Irish coffee. Tem sérios problemas com a expressão facial: arqueia as sobrancelhas cada vez que suspeita de algo ou antes de uma pergunta importante ("esta pessoa tem cabelo loiro?"), de modo que o interlocutor, se estiver esperto, terá como burlar sua curiosidade mórbida e salvaguardar um pouco de sua privacidade. Se algo vai acontecer na sua vida, esta pessoa saberá primeiro. O melhor é sempre fingir afonia, garganta inflamada ou coisa do tipo. 

O tipo viciado em jogos de lógica da Coquetel: não é apenas especulação dizer que esta pessoa está constantemente estudando os outros para ver no que pode levar vantagem. "Vejamos qual ovo é mais podre. O de Fulano está verde, mas o de Cicrano está há mais dias fora da geladeira. Mas sintam como o meu fede. Foi posto ontem, mas só pelo cheiro com certeza é o mais podre". Alguém precisa avisá-lo de que vida não é uma competição para ver quem é o mais frustrado. Se fosse assim, só ganhariam os que gostam de se pavonear. É tipo o Moz cantando "Heaven knows I'm miserable now": dá dó, mas logo em seguida a gente abstrai e dá um skip sem querer. O que entra na sequência? Talvez um conselho valioso: "Shyness is nice". Deixa ele falar sozinho. 

O magnata do Jogo da Vida: segue o script, mas se há algo relativo neste mundo é o que se chama de derrota neste jogo. Convenhamos, não faz sentido chegar ao final de um tabuleiro e encontrar um senhor de bigodes aproveitando uma aposentadoria ridícula. Sou mais o primo mais novo que não sabe fazer as escolhas certas nas bifurcações e dá um rolê voltando sete casas cada vez que uma enchente derrubou uma casa imaginária que deveria ter sido hipotecada. O magnata do Jogo da Vida é companheiro fiel d'Aquele que tripudia ao jogar War. Tomam uma cerveja juntos e vão a manifestações sem saber o que estão reivindicando. No aniversário, dê potes de guache azul e amarelo e deixe ele descobrir sozinho como se faz o verde. Afinal, meritocracia, né?

O devedor do Banco Imobiliário: este acumulador nato não descansa enquanto não conseguir os três bairros da mesma cor em qualquer lugar que parar com seu peão. Sua natureza de alpinista social cansa os mais bem relacionados (sorte a nossa). Vai à vernissage para tomar vinho de graça (assim como eu e você), mas acredita que paira por cima da carne seca. Não se enxerga nem quando vai para a cadeia pela quinta vez. Também não entende que comprar a carta de "saída livre da prisão" é algo ilegal. Deve pro banco, mas troca de carro todo ano. Talvez não saiba pronunciar vernissage.

Na ciranda da maioridade, se fodendo um pouco. Mais uma de Pieter Bruegel.

Em resumo, o que aprendi escrevendo isto? Não muito, só que às vezes usar estereótipos funciona como um calmante. Somos todos previsíveis, não é mesmo? E aí, quem é você no jogo da vida?



*Nem o Google soube me responder a grafia correta ou se o termo existe. Acredito que não exista registro mesmo. Fiz uma breve pesquisa informal no facebook e constatei que mais pessoas do norte de Santa Catarina falavam "fráis" praquele lugar em que dávamos um tempo do pega-pega, um descanso pras pernas bambas das crianças. Deve vir de frei (fala-se "frai"), que é livre em alemão. Mas em Blumenau é "fraio" (que feio, meu Deus) ou ainda "fraion" e em Floripa, barra. Aprendi também que na Bahia é "dois alto" e o termo para São Paulo e Paraná é pique. Tem também o termo bando, usado no sudoeste do Paraná e no Rio Grande do Sul usa-se a palavra raia, teto ou (pasme) ferrolho, o que é bem paradoxal: você não pode ser pego porque já tá acorrentado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário