20 de abril de 2015

comidas tão fotogênicas quanto eu

Chuchu refogado. Todas as fotos são do meu celular.

Sempre falo que adoro cozinhar, mas odeio deixar o prato bonito pra foto. Isso justifica muitos dos posts velhos desse blog, quando eu não tinha a menor paciência pra fazer um montinho de arroz, um ninho de macarrão, etc, e tentar fazer uma foto boa com a webcam do meu computador. Por muitas vezes periguei perder o computador ou a refeição por quase deixar cair um dos dois. Pois é. Se você está chegando agora no pedaço, dê graças ao Vale do Silício por eu estar fazendo fotos com nitidez e foco.

Tapioca desgrenhada.

Eu ainda odeio arrumar a comida pra foto, mas me amasiei com um esteta. Tem vezes que ele não fotografa se a gente não fizer um negócio legal e, por consequência, fico sem posts. Se ainda havia dúvidas do porquê de a periodicidade do Tô Puta ser tão esquisita, aí está a resposta. O que faço é fotografar tudo com o celular sozinha de qualquer jeito só pra eu lembrar o que comi nos dias anteriores. Às vezes rola um instagram. E pra não ter que arrumar bonitinho, porque só cozinho quanto estou faminta. A maior parte dessas fotos, no entanto, meu namorado fez com o meu celular depois de constatar que apanho até deste equipamento. Minha "linguagem" é: segurar a comida com uma mão e fotografar com a outra. Não vario muito.



Panquecas depressivas. Peguei a receita da Laura Miller, do Raw Vegan Not Gross e deixei com a ~minha carinha~
Namorar um fotógrafo tem momentos maravilhosos, como ter sempre uma 3x4 pronta para ser impressa e fotos legais quando você faz uma torta de tomate gostosa. Tudo vem com um ônus, até mesmo o amor. Passo momentos fingindo que não tenho vergonha de fazer carão no restaurante. Cada vez que a gente vai comer em algum lugar que calhe de ter uma janela grande ou um vidro leitoso, o Chile despiroca querendo fotografar porque "a luz tá muito boa, não se mexe". Invariavelmente estou mastigando e pareço um bovino tentando abocanhar uma porção generosa de capim. Ou saio com cara de nojentinha porque tem arroz mastigado no céu da minha boca e se eu sorrir vou ficar meio estranha. Sempre opto pela segunda opção e apago as fotos em que tem alface fugindo da minha boca.

Disfarçando a mastigação colocando a mão sobre a bochecha e esmagando tudo.
Essa sou eu: uma pessoa que não sabe fazer uma cara boa pra foto nem parar de piscar por cinco segundos. E faço comidas tão fotogênicas quanto eu: um feijão que explodiu, um chuchu refogado capenga, panquecas des-mai-a-das, tapiocas atropeladas. Que posso fazer? São receitas que refletem minha essência: alguém que não acredita que passar meia hora picando os legumes em cubinhos perfeitos vai me tornar uma pessoa melhor. Menos mal que hoje em dia preparo coisas gostosas. Se eu dependesse da minha habilidade para fazer coisas bonitas, no entanto, passaria fome.

Feijões brancos assados até explodirem. Refoguei alho e cebola picados bem pequeninhos com bastante pimenta e um pouco de passata de tomate e passei os feijões brancos já cozidos nesta mistura. Assei por quase uma hora e comi como se fosse pipoca.
O que me incomoda na maior parte das vezes é que tem gente que acha que tem que fazer só coisa bonita pra ter um blog. Mas a vida não é um show da Beyoncé e nem toda cozinha é flawless – I cooked it up like this! Tem comidas feiosinhas que não são apreciadas do jeito que merecem porque as pessoas querem pratos magníficos em toda postagem. Quer coisa mais desengonçada que um coleslaw? Mas basta aparecer um coleslaw no Pinterest que todo mundo baba ovo e quer fazer igual. Vamos continuar com as comidas sinceras aí porque pasta americana é um negócio escroto e nem todo mundo precisa fazer maravilhas fotogênicas. Break free, rapaziada! Bake it like nobody's watching! Ah! E por falar em pinterest, as fotos aqui exibidas são passíveis de serem "pinadas". SPREAD THE WORD. E tenha bom senso.

Três coisas bem fotogênicas: sopa de feijão, salada de pupunha e tabule. Três coisas que combinam muito bem entre si... quando você tem que esvaziar a geladeira.
Depois desta longa introdução na defensiva, recomendo que vocês passem o próximo dia livre comendo quilos dessa salada de palmito pupunha fresco. Há um mês, a gente achou um ótimo investimento pagar dezão num palmito pupunha orgânico inteiro na feira. Pra passar algumas semanas e descobrirmos que agora estão cobrando sete reais. É muita alegria pra alguém que ama palmito (eu). Recomendo assá-lo com um dente de alho macerado com azeite e tomilho ou orégano. Fica espetacular! Tomilho fresco deve ficar bom também, mas vai esturricar no forno e todos sabemos que nem sempre aquela muda comprada no supermercado vai sobreviver por muito tempo na janela. É preciso mais que um dedo verde: dedicação total. Eu, aliás, estou em débito com a minha horta. Nem adianta mais chegar lá e podar, etc, porque estão todas moribundas e magoadíssimas com o nosso descaso durante as férias, que foi: viajar no verão. Nem eu me perdoei ainda. 

Queríamos uma receita que fosse além do palmito assado com azeite e ervas, então subi num banquinho e consultei a nossa biblioteca. Peguei esta receita do livro Comidinhas Vegetarianas, da Rita Taraborelli. No preparo original diz para fazer com pupunha cru, mas nós assamos o palmito em papel-alumínio por meia hora e depois picamos e misturamos ao molho. Fiz outras adaptações também: o tomate eu coloquei no molho e não picado com o palmito. O grande lance é a combinação de limão, tomate, amêndoas e as ervas. A proporção vai de acordo com o gosto da pessoa.



salada de pupunha pra comer loucamente
pupunha picada em rodelas ou cubinhos (só a parte molinha do palmito, não precisa comer aquela parte fibrosa horrível de mastigar)
3 tomates pelados
5 colheres de sopa de azeite
2/3 de xícara de amêndoas sem casca
1/2 limão rosa
1/4 de xícara de salsinha
1/4 de xícara de manjericão 
1/2 dente de alho pequeno
sal e pimenta-do-reino a gosto

O palmito pode ser assado ou cru. O importante é usar apenas a parte macia. Processe tudo, exceto a pupunha, que deve ser cortada em cubinhos. Corrija o tempero do molho se preciso, misture-o ao palmito e sirva com folhas verdes. Acho esta salada mais gostosa se for servida em temperatura ambiente, mas gelada também rola.

Simplérrima, hein? Flawless, eu diria.

***

A vingança é um prato que se come ostentando: pães de mandioquinha que o Chile esqueceu no forno e viraram bumerangues ocos (insira uma cara malévola aqui). Registrei usando a minha ~linguagem~:



3 comentários:

  1. Adoro seus textos Flávia! E seu senso de humor também hehehe ;) É muito gostoso ler seu blog, é difícil encontrar ultimamente um blog autêntico como o seu. Ah, e a salada de palmito pupunha deve ser divida, adoro palmito fresco, bem melhor que o de conserva. Pena que nem sempre é fácil encontrar.

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    1. André, caí pra trás de emoção com o seu comentário! Muito obrigada. :)
      Se eu pudesse, comeria sozinha essa salada, hahaha.

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  2. MORRI.
    Primeiro porque estou morrendo de fome e a escolha de ler esse post foi um tanto errada, vou corrigir comentando e indo cozinhar algo agorinha.
    Segundo porque ri muito, lhentendo demais e tenho agonias dessa obrigação de ter fotos lindas. Sigo tentando e colocando o namorado fotógrafo nessa empreitada também haha
    <3

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