5 de abril de 2015

mea culpa: tofu e sopaipilla têm muito valor

Aaaah, tortaaaaaaaa! Fotos: Carlos Felipe Urquizar Rojas

Acho que tão importante quanto tentar ser uma pessoa melhor mesmo que você secretamente não queira (não olhe pra mim, ouvi falar que é assim) é reconhecer quando você é babaca com alguém ou alguma coisa. Mesmo que você relute em aceitar isso, é um exercício bem importante na vida adulta. Ou isto ou você pode acabar sendo um desses estereótipos bizarros que existem por aí.

Então vou aproveitar que estamos num dia bem propício pra falar latim e fazer a mea culpa: eu fui uma pessoa muito negligente com o potencial do tofu por muito tempo. Eu não quis enxergar através daquela alvura insonsa. Mas agora faz uns bons dois anos que minha primeira impressão deste coagulado de leite de soja mudou. No início, quando o Chile estava começando a se alimentar sem derivados animais, eu apenas torcia o nariz e fazia ele desistir de comprar tofu pra deixar na minha casa (o pobrezinho mesmo assim me ama, pra vocês verem como milagres acontecem com ou sem quaresma). Pois bem, agora nós moramos juntos e eu consumo um bloco de tofu por semana sozinha. Não preciso falar muito mais, preciso? Já tô com vergonha só de admitir isso publicamente. Não há volta agora. Podem me crucificar.



A mesma falta de noção eu tive com sopaipilla, mas esta é mais defensável. Sopaipilla é uma massa de abóbora com trigo típica da culinária chilena. É frita por imersão e salpicada de sal ou com calda de caramelo. Porra, é muita gordura e açúcar num mesmo pedaço de comida. Não rola. Já falei que meu fígado é burro e não sabe processar tudo isso? Pois então.

Antes de ir ao forno. É importante assar os tomates antes para eles não soltarem líquido em cima da torta e ensopar a massa.

Este foi o feriado dos excessos: comemos os chocolates antes do domingo, fizemos refeições em horários errados (almoço às 16h, quem nunca?), fizemos sopaipilla e acordamos sem despertador – o que fodeu o rolê inteiro, agora teremos que compensar trabalhando de madrugada durante a semana. Não é sempre que a gincana "vamos fazer um almoço com tudo o que vai passar do ponto" tem bons resultados, então respirem aliviados comigo: nosso almoço de páscoa foi bem bacaninha e ornou até com as folhas de mostarda que estavam amarelando e as azeitonas Azapa que compramos no Mercado Municipal ontem. Então fica a dica de combinação aí se você for fazer em casa.

Para o tofu não lembrar isopor mole eu temperei com bastante sal e pimenta-do-reino para que os sabores dos outros ingredientes ficassem destacados: cenoura, para ficar com alguns pedacinhos crocantes; tomate seco para fazer a base de sabor e conversar com os tomates da cobertura e manjericão, que é a dupla dinâmica do tomate em qualquer receita. Não tem erro.



Torta de tomate 

tomates ao forno
um punhado de tomates-cereja (cerca de 40, o que sobrar você come num sanduba)
3 dentes de alho bem picadinhos
1 cebola pequena em tiras (usei roxa)
1 colher de sopa de shoyu
aceto balsâmico

É melhor começar pelos tomates porque eles ficarão no forno enquanto você faz o restante da receita: fure cada um deles e misture o alho e a cebola. Despeje o shoyu e o aceto balsâmico por cima e mexa a travessa para assentar bem. É o equivalente a um fio de cada um, o suficiente para que se misturem ao líquido que o tomate soltar durante o forno e criar um caldinho espesso com um sabor umami maravilhoso. Vai pro forno pré-aquecido a 200ºC por trinta minutos ou até o caldo do fundo da travessa ficar espesso e os tomates bem moles. Se você usar os tomates frescos em cima da torta, ao assar vão soltar todo seu líquido em cima do recheio, escorrer pelas bordas e ensopar a massa. It's your call.


Massa, recheio, tomate. Essa torta é moleza. Fotos minhas de celular.


massa
1/2 abóbora cabotiá (olha, eu não sei quanto pesa. o Chile também não e foi ele quem fez, então não briguem comigo. acho que 200 g servem)
2 xícaras de farinha de trigo integral (e mais para dar o ponto)
1 xícara de farinha de trigo branca
1/4 de xícara de gordura de coco
1 colher de chá de sal

Cozinhe as abóboras até elas ficarem bem macias, de preferência no vapor para que a massa não fique muito molhada e precise ser corrigida com farinha. Corte a casca, que estará macia, e coma, porque é muito boa. Depois amasse o miolo até formar um purê e vá misturando as farinhas, a gordura e o sal até dar o ponto, que é: não grudar muito na sua mão e poder ser aberta com um rolo de macarrão sem parecer que órgãos internos explodiram na bancada. A verdade é que usamos 1/3 desta massa, porque o resto o Chile fritou por imersão em óleo e comemos com sal e mostarda: isto é sopaipilla, uma coisinha muito gostosa e gorda da culinária chilena que eu, não sei o porquê, não amava ainda. Agora amo. Pazes feitas.


Friturinha boa: massa de abóbora, a sopaipilla dos chilenos. Dá pra comer salgada ou fazer um caramelo com especiarias para mergulhá-las e ficar bem feliz ignorando o trabalho monstruoso que está dando ao seu fígado.


Este um terço que sobrou da noite de fritura guardei na geladeira por duas noites e usei como a base da torta; se não tivesse isso em casa eu teria feito uma massa tradicional de massa podre: gordura + farinha de trigo e sal (pego as proporções de qualquer massa podre convencional e tiro o ovo). Eu coloco curry quando faço ela só com trigo porque acho que dá uma cor legal, já que não leva ovo. Pode furar ela e assar por uns 15 minutos e aí colocar o recheio. Ou pode colocar o recheio e os tomates logo de cara. Para esta receita usei uma forma de fundo removível de 20 cm de diâmetro.


recheio de tofu
250g de tofu prensado para sair o excesso de água
2 tomates secos no azeite (pode colocar 5 se não usar os tomates de forno para triturar o recheio)
1 colher de sopa de tahine
6 - 10 tomates do forno (pode tirar a forma no meio do tempo para fazer o recheio, o importante é que os tomates já tenham ficado um tempo com o alho e a cebola. pode colocar os tomates com o que tiver grudado nele e um pouco do caldinho se achar pertinente)
1 cenoura pequena
1 colher de chá de páprica picante (opcional)
1/2 xícara de folhas de manjericão fresco
sal e pimenta-do-reino a gosto

Bata tudo, exceto o manjericão, no mixer, no processador ou no liquidificador. Usei o processador. O manjericão vai por último para bater pouquinho. Coloque o recheio sobre a massa, em seguida os tomates e no forno, que já estará quente, por 30 minutos.



Tchan! Prontinha pra ser devorada.


3 comentários:

  1. Lindas as fotos e a receita parece maravilhosa. Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Meu Deus que coisa mais maravilhosa!

    Mais receitas com tofu, por favor! Quero muito aprender a fazer pastinhas de tofu e tofu temperado pra comer com pão e torradas!

    O tofu tu faz ou compra pronto?

    Ah, sou eu. Ju Ruiva.

    ResponderExcluir