12 de maio de 2015

"a couve original", coluna do caderno g

Nesta terça saiu um texto meu sobre couve-de-Bruxelas ou o demônio vegetal (só isto explica o cheiro). O texto foi publicado originalmente no site da Gazeta do Povo e você pode acessar todas elas clicando aqui.

Ilustração: Felipe Lima/Gazeta do Povo

A couve original

Hora do almoço. Abro a geladeira e me envolve aquele cheiro hediondo que me remete ao banheiro. Preciso de alguns segundos para atinar que as couves-de-Bruxelas começaram a estragar. O pacote tinha menos de 100 gramas e alguns repolhinhos tinham manchas amarelas nas folhas de fora. Um estardalhaço de fedor para vegetais tão pequenos, por quê, Deus? Decido, então, exterminá-las imediatamente em uma refeição para que não me assalte aquela catinga novamente.


Inspirada em uma receita que o chef Du Mello preparou para a revista Bom Gourmet em novembro, preparo-as na frigideira. No lugar do mel nativo que o chef usou, escolho melado de cana. E shoyu e vinagre de vinho tinto com suco de framboesa. Tento não praguejar, apenas prender a respiração enquanto removo as folhas externas e corto as couves na metade. Vão para a frigideira quente em pouco azeite de oliva, só para ficarem mais coradas e não grudarem no fundo. Uma colher de chá de melado de cana, que prontamente se derrete ao redor das couvezinhas, uns pingos de vinagre para acentuar o azedo e não mais que uma colher de sopa de shoyu para salgar. O mau cheiro sumiu, meu almoço ficou mais interessante.

Horas depois, volto a cozinha para preparar o jantar. Descasco a cebola, abro a lixeira e uma legião de demônios sai para chutar a minha cara com suas botas de enxofre azedo. Por quê, Deus? Por que fizeste as brássicas soltarem tantos gases sórdidos? Não posso evitar o pensamento de que o diabo fez uma boa escolha ao oferecer a (suposta) maçã à Eva. Qual seria o pecado original se na época do Éden a couve-de-Bruxelas fosse mais popular – e o capeta, mais espírito de porco? O tabu, talvez, seria ficar sem tomar banho. Crianças nasceriam por geração espontânea, bastando deixar uns trapos apodrecendo no canto da lavanderia. Lascívia significaria axilas suadas, pés com chulé, enfim, toda sorte de fermentação natural do corpo posta à mostra. Talvez prevendo o desastre, Ele tenha espiado o jardim e aconselhado, num sussurro: “Atenha-se à maçã, Eva. À maçã”.

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