26 de maio de 2015

"especialidade da casa: gororoba", coluna do caderno g

A historinha de hoje no Caderno G, caderno de cultura do jornal paranaense Gazeta do Povo, é sobre um velho conhecido deste blog. Que, afinal, inspirou a existência deste nobre espaço que alguém achou que seria proveitoso me ceder. Estou bem feliz com o resultado (de olhos fechados e sorrindinho que nem o Felipe Parucci me desenhou), espero que vocês também. Vocês podem clicar aqui pra ler todas as colunas e também acessarem a página em que ele foi originalmente publicado e deixarem um comentário por lá.

Ilustração: Felipe Lima/Gazeta do Povo


Especialidade da casa: gororoba 

Quando tudo dá errado e você serve uma panelinha com um monte de coisa grudada, o melhor a fazer é fingir que nada aconteceu.

Diga que a intenção era que o prato não estivesse tão salgado ou coisa parecida, mas não se abale muito nem dramatize só porque o arroz empapou.

Honestamente, quem liga se você serviu uma porcaria no jantar?
Comida ruim rende conversas futuras e a certeza de que, se ainda aceitarem seu convite, você pode surpreendê-los no futuro com algo razoável. Depois de alguns anos, quem sabe, você tenha uma especialidade. No meu caso, cada vez que tento encantar uma visita, as coisas fogem do controle e acabo preparando o que melhor sei fazer desde que comecei a cozinhar: gororobas.Respire fundo e abra um vinho velho ou uma cerveja daquelas especiais e conte um causo. Como daquela vez em que você conseguiu carbonizar milhos de pipoca na casa de uma amiga ou que perdeu o ônibus porque demorou para as batatas ficarem prontas.

Meus primeiros experimentos de massa ao forno (leia-se: bolos) eram desastres. Abatumavam, ficavam com gosto de cru mas ao mesmo tempo muito secos ou pareciam sofás recém-usados, como se uma bunda disforme tivesse se sentado por horas nele.

Eram horrorosos e ninguém escondia isso de mim. No começo até dói, mas depois acostuma. A farinha às vezes estava velha, hoje sei, e eu não tive nem nunca terei forças para bater claras em neve no muque.

Quanta porcaria já comi e servi. Quanta porcaria já joguei fora. A verdade é que todo mundo desconfia quando o seu prato deu errado. Alguns são educados demais para comentar algo; outros, debochados demais para ficarem quietos e tem ainda aqueles que não fazem ideia de como deveria ser uma pasta al dente.

Falhar é exercer integralmente sua natureza humana, logo é natural que seja frequente. Cozinhe porcarias e sirva-as sem dó. Os mais íntimos ficarão orgulhosos de acompanhar sua evolução.

Uma vez, já escolada, fui fazer um risoto de cenoura com açafrão-da-terra e em vez de medir o pó com uma colher de chá, como qualquer pessoa normal faria, confiei no gingado do meu pulso e chacoalhei o vidro. Primeiro devagar, para deslizar o pó até a boca do vidro. Depois, com ritmo e movimentos largos sobre a panela, para espalhá-lo. Eis que uma pelota do tamanho de uma noz moscada despenca no meio do arroz.

Pânico. Sofrimento. Autocomiseração.

Consegui tirar um tanto com um talher, mas o resto ficou lá, um volume duas vezes maior do que o necessário. Resolvi aceitar a tragédia e misturei bem. Corrigi sal, moí pimenta e servi a panela pesarosa, desculpando-me por não ter feito algo “mais elaborado”.

E o imprevisível aconteceu: a visita gostou, repetiu a porção e saiu contando para conhecidos e desconhecidos que havia comido o melhor risoto de todos os tempos na minha casa. Curiosos pediram a receita. E não era deboche.

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