5 de maio de 2015

fuck you, fitatos

Com a mais recente modalidade esportiva inventada por mim para ingerir fibras e adaptar minha alimentação para ser mais proteica que o usual, estou passando por alguns apertos. Digo, distensões. Digo, desconfortos. Digo: meu sistema digestório está se puxando para terminar o trabalho sem maiores danos. Assim como a Amazônia, minha flora intestinal está devastada. Passou um trator pelas microvilosidades e levou todo mundo junto. Mentira, só exagero. But the struggle is real.

Feijões escandalosos. Foto: Carlos Felipe Urquizar Rojas

Cada vez que deixo feijões de molho eu já sei o que me aguarda: um sono incontrolável e desconforto intestinal. Temos aí cominho, louro, assafétida e a opção de não comer, claro. Como não comer feijão no país da feijoada? Como ignorar aquela informação de que arroz com feijão te dão todos os aminoácidos essenciais pro seu corpinho ficar feliz brincando de Lego até formar proteínas? Não consigo. Posso comer feijões, lentilhas, grão-de-bico, dormir dez horas depois da refeição e minha barriga estufa e apenas devo esperar passar. Queria ficar de férias cada vez que coloco uma colherada de homus no pão.



Felizmente não sou a única que passa pelo dilema – comer ou não comer?. Sei disso porque apesar de toda a misantropia a que me atribuem, eu participo de grupos de discussão e leio alguns relatos bem semelhantes. Esses dias uma moça quis saber onde comprar enzimas para digestão. Relatou algo pior: aparentemente passa mal comendo outras coisas também, como legumes. Não queria ser a dona desse intestino. Teve uma época em que eu tomava um copinho de enzimas antes das refeições (no meu período paleolítico, quando eu devorava qualquer coisa em quantidade exorbitante porque achava mais seguro me estufar que esperar a próxima refeição. Acho que já evoluí um bocado) e, sinceramente, não lembro se me facilitou muita coisa.

Mas lembro que sempre detestei ter que tomar comprimidos, cápsulas e gotinhas. Neste momento da minha vida ingiro cinco cápsulas por dia e trinta bolotinhas doces de lítio porque o homeopata ordenou.

Pausa para vocês me julgarem porque vou ao homeopata. 

Não entendo porque tem que ser doce, me sinto trapaceando o que a nutricionista recomendou (veja a diferença do verbo empregado; diz muito sobre os profissionais que frequento). Estou realmente desanimada com as perspectivas da minha biota, mas não desistirei. Não é organizando um motim que irei besuntá-la em gordura e deixar de comer salada. Já faço isso uma vez por semana, sem culpa alguma (de nada, Isadora!). O que tenho feito com afinco é deixar as leguminosas de molho de oito até 20 horas e sempre temperar com cominho e assafétida, uma resina de árvore que os indianos usam no lugar do alho e da cebola. Os temperos são importantes para diminuir o desconforto intestinal e o molho, para eliminar os malditos fitatos, que roubam os minerais e atrapalham a digestão. São os tais anti-nutrientes, que, sabe-se lá o motivo, a mãe natureza quis enfiar em toda a família dos feijões e afins. Não sei se é um bom momento para discutir a sabedoria ~das coisas que a Terra nos dá~, mas sempre é um bom momento para pensar na nossa relação com o divino, que pode ser culpabilizada por todo o mal que nos aflige.

Neste mesmo tópico em que a moça pede ajuda para viver como um ser humano com abdômen de proporções normais, um rapaz muito solícito sugeriu que ela visse um vídeo (que tinha 51 minutos. Qual o problema deste cara?) e questionou: "Como eu disse, você não precisa de feijão [para ingerir todos os aminoácidos essenciais]. Você acredita em Deus? Será que ele fez isso contra você?". Que bom que ele não perguntou isso pra mim. Eu diria: "Olha, rapaz. Pelo que sei da minha relação com o cara lá de cima, ele tá é se divertindo com esta merda. Me desculpe. Quis dizer: com tudo isso". Só imagino o que ele me reserva quando eu estiver de bengala.

***

FSQ (frequently suggested questions):
"Mas Flávia, tome kefir". Matei o meu.
"Coma mais devagar". A gente faz o que pode quando pode.
"Tenta não falar tanto enquanto come". A. HA. HA. HA.

Um comentário:

  1. Hahahahahahaahah
    Ainda quero ver o vídeodo feijão!!!

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