18 de maio de 2015

uma grande mentira que chamei de ratatouille

Legumes prontos e tofus aguardando a frigideira esquentar.

Adoro coisas em camadas. Casacos, cobertores, dormir de conchinha, cebolas, lasanhas, enfim, só coisa boa existe em camadas (menos unha descascando). E cozinhar coisas com camadas é mais terapêutico que pintar livro de desenho: você só tem que cortar em fatias vários legumes por minutos a fio, tascar tudo numa travessa e colocar no forno. Não precisa grelhar, reservar, sujar mil panelas, reduzir molho e o escambau. Na verdade, precisaria, mas eu sou da escola preguicista (alou, neologismo) de gastronomia, então nada de selar berinjelas hoje. Mas você... Bem, você faz do jeito que achar melhor. Não usei técnica alguma para esta receita, nem uma mandoline – mas só porque não tenho nenhuma dessas coisas. Então tá certo dizer que qualquer um munido de uma faca, de uma travessa e com um forno à disposição consegue fazer.



Ter berinjelas, abobrinhas e tomates é quase obrigatório aqui em casa. Basta estarmos na época. Mas esta ratatouille que preparei na semana passada e que vocês curtiram no Facebook foi feito no susto. Eu não pensei "bora fazer uma ratatouille porque a cozinha francesa não vai invadir minha casa sozinha". Eu pensei "meu deus, não quero pedir pizza, não hoje, pelamordedeus o que que eu posso cozinhar?". E tinha duas berinjelas murchando, tadinhas. Elas sempre se deprimem depois de uns três dias fora da geladeira, e não tem jeito: são compradas para fazer babaganush, mas haja vontade pra limpar o fogão depois (no forno não fica igual, não insista). Acabam virando refogados. Mas neste dia havia também vários tomates italianos que minha mãe deixou em casa e abobrinhas magricelas que comprei na feira. Gosto das abobrinhas bem firmes e pequenas porque além de não desenvolverem as sementes e ficarem com aquele miolo molengão brochante, elas têm uma textura crocante e dá para usar integralmente nas receitas. Elas, sim, haviam sido compradas para virar refogado ou uma dessas receitas que a gente gosta de fazer pra enganar o cérebro, como uma "macarronada" de abobrinhas. Mas no momento da fome todos os planos me parecem irracionais porque muito calculados. E dá-lhe fatiar tudo sem cortar os dedos.

Um dia, quando eu morava sozinha, fotografei alguns leguminhos que tinha comprado naquela semana. É pouco prático prepará-los muito picados ou fatiados, mas são uma graça. Estas fotos devem ser de 2012.

Aos detalhes bobinhos: usei orégano e tomilho desidratados, mas pode ser fresco também. Na verdade, vá de ervas da Provence: alecrim e o escambau. Pimentões amarelos ou vermelhos e cebolas são bem-vindos porque desta maneira que fiz é apenas uma grande mentira saborosa. Mas faça direito, faça melhor: além das dicas anteriores, acate a próxima. Compre todos legumes com o mesmo diâmetro, assim quando você arrumá-los na travessa vai ficar muito mais charmoso. Com o que sobrou (sempre sobra) fiz sanduíches com mostarda dijon, um tiquinho de kimchi e rúcula e também misturei com cogumelos e mais tomates e servi com espaguete (esqueci de fotografar, foi mal). E last, but not least: você sabia que ratatouille é apenas o prato feito com os legumes em cubinhos guisados na panela e não em fatias no forno? Um ratinho cinza me contou que desta outra maneira chama-se tian provençal. Como se não tivéssemos demorado tempo o suficiente (sete anos pra ser mais exata) para aprender a pronúncia correta de ratatouille, mais um nome afetado pra sair falando por aí fazendo jus à fama de metida. ISTO A DISNEY NÃO MOSTRA.

Remy finalizando uma ratatouille que na verdade se chama tian provençal. O que será das nossas crianças que aprendem nomes errados nos filmes infantis?!

uma grande mentira que chamei de ratatouille
2 berinjelas em fatias
3 abobrinhas bem pequenas (compre duas grandes) em fatias
3 tomates maduros em fatias
3 dentes de alho bem picadinhos
orégano e tomilho a gosto
sal e pimenta-do-reino
azeite de oliva

Corte os legumes o mais fino que puder ou use uma mandoline ou fatiador. Você pode temperar cada legume fatiado antes de montá-los na travessa ou fazer o "trenzinho" e depois temperar por cima – na minha cozinha preguicista é desta última forma. Empilhe-os e disponha na travessa apertando bem para que se mantenham em pé. Regue com azeite de oliva e jogue o alho picadinho por cima. Tempere com as ervas e tampe com papel-alumínio e asse em forno pré-aquecido a 200 graus C por meia hora ou até a berinjela estar macia. Se você não selou a berinjela e a abobrinha antes de fazer este prato, elas soltarão água (o tomate também, mas o que se há de fazer, né?). Eu adoro, mas se você acha nada a ver este líquido e não quiser selar antes, tire o papel-alumínio assim que os vegetais ficarem macios e deixe no forno mais alguns minutos até a água evaporar.

Para acompanhar fizemos tofu grelhado. Marinamos em azeite de oliva, shoyu, mostarda dijon, aceto balsâmico, um dente de alho grande fatiado, óleo de gergelim e limão. Tudo meio no olho. Você prova o líquido e deixa os pedaços de tofu descansando por uma meia hora antes de selar eles em uma frigideira bem quente com um pouco de óleo, dos dois lados.

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