30 de junho de 2015

a escatologia forjou minha personalidade

Este rascunho foi criado há quase um ano, quando ainda era apenas a transcrição de uma epifania, sem muita autoanálise. Desde então tenho anotado tudo que me vem à cabeça quando lembro que a escatologia forjou minha personalidade.

Biscoitos caseiros de nata.
I.
Eu costumo ter crises escrotas de ansiedade quando me passo no expediente. Por exemplo, quando eu era assessora free-lancer inexperiente sozinha num grande evento. Não tinha (talvez nem tenha ainda) estrutura emocional para isto e passei a semana comendo bolachas de nata de uma padaria como forma de me recompensar por ter sobrevivido por mais 10 minutos. Era a melhor coisa que eu poderia ter feito por mim mesma naquela situação.
Talvez um intervalo um pouco maior seria mais seguro. Depois do evento tive uma crise medonha de histeria ou coisa que o valha e passei o dia seguinte tentando me recuperar do ritmo alucinante da ragatanga institucional. Comi as tais como se não houvesse amanhã. Vomitei tudo em poucas horas. Quatro anos depois me deparo com bolachinhas de nata caseiras feitas por uma mãe – bolachas originais, então! – e me senti descontrolada novamente. Comi muitas e ainda me deram algumas para levar para casa. Digeri-as até o fim.



II.
Tenho quase certeza de que houve um contexto apropriado, mas a frase me marcou como se só tivesse sido proferida para criar um momento bizarro: "Placenta tem cheiro de porra". Olhei pro meu pai com uma dúvida sincera na voz, mas acabei gargalhando. "Porra, pai, que merda pra se falar a essa hora". Era de manhã cedo e ele me levava para a rodoviária. No rádio estavam transmitindo alguma notícia sobre crianças ou grávidas. Eu ainda morava em Floripa. Lembro de ter tuitado a pérola, para o horror de um ou dois seguidores que me responderam perplexos. Parei de usar o Twitter.



III.
Sou de um município em que é muito normal todas as pessoas surpreendidas exclamarem um sonoro "ah, meu pau!". Tente falar isto fora de Jaraguá do Sul e todas as almas ao seu redor ficarão mudas por pelo menos dez segundos. Sem piscar. De boca aberta. Encarando você. Acaba aí qualquer imagem de boa pessoa que você construiu com afinco.



IV.
Teve aquela vez em que eu caminhava por alguma cidade desconhecida, minha mãe me puxando pela mão, e avistei uma poça de vômito num canto da calçada. Aos seis anos eu nunca havia visto o vômito de outra pessoa e fiquei muito curiosa, querendo saber o que a pessoa havia comido antes de se estrebuchar. Eu achava que só as crianças vomitavam, mas provavelmente era vômito de adolescente bêbado.



V.
Há poucos dias, sozinha em casa. Fiz meu café da manhã: banana com granola e uma colossal xícara de chá preto. Enquanto comia, lia uma revista. Uns últimos goles para arrematar a refeição e começaram os engulhos. Espalmei as duas mãos contra a boca, mas o líquido escuro espirrou para todos os lados. Vomitei até ficar vazia de propósitos e fui ao trabalho. Antes, limpei o chão. No pronto-socorro: "é virose".



VI.
Finjo não fitar a galinha depenada porque meu olhar não será correspondido. Sua cabeça jaz na mão murcha de dona Isabel, uma senhora septuagenária que chacoalha sua própria cabeça na minha direção, sorrindo muito e falando baixo. Está entre satisfeita e entusiasmada, porque eu sou a mocinha da cidade que vai entrevistar os filhos dela e porque mais tarde eles terão galinha caipira para o almoço. Não é todo dia que o povo da roça tem carne na mesa e preciso parar de fazer minha cara horrorizada pra bunda pelada da ave e olhar nos olhos de dona Isabel. Preciso não me importar que aquele bicho agora rígido morreu nas mãos de uma senhora tão adorável. Estou demasiadamente encasacada para o dia e me escoro no portão verde enquanto ela me aponta o caminho que temos que percorrer para encontrar a roça. Agradeço e entro no carro: “vamos pegar aquela rua do pinheiro alto e seguir até o fim”. Somos três pessoas com sono precisando tomar um café para esquentar o nariz. Naquela manhã, atolei meu par de tênis em barro adubado pra ver de perto os pés de brócolis, alface, cenouras e rabanetes e cheirar estrume de cavalo e galinha. Voltei para casa realizada, incapaz de lavar a sola do sapato por uma semana. As poucas horas que passei em Campo Largo oscilando entre pensar na galinha depenada e acéfala e no que mais deveria perguntar aos irmãos agricultores, me lembrei das tardes que passava comendo tangerinas num bairro rural de Jaraguá do Sul, enquanto meus amiguinhos rolavam bosta de vaca seca do alto do morro. Bons tempos.


***

Diante de memórias tão podres achei que seria apropriado dispensar qualquer tipo de receita. Prometo melhorar.

2 comentários:

  1. Somos todos fluidos. Foi essa minha conclusão após ataques de esofagite e duodenite e uma bactéria no intestino. Além dos cheiros das ruas do centro, das coisas que a gente realmente vê no chão (me identifico contigo). Desmistificá-los talvez faça a gente mais fria? talvez, mas quem nunca cutucou o nariz né?

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    1. Somos todos muco e eu acho que isso faz da gente menos frio. :-*

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