10 de junho de 2015

"em defesa da sopa", coluna do caderno g

Com algumas horas de atraso, publico o texto desta quinzena. Escrevo terça sim, terça não, para o Caderno G, o caderno de cultura do jornal Gazeta do Povo. Clique aqui para ler o texto no link original ou aqui para ver todos os textos publicados na coluna.

Ilustração: Felipe Lima/Gazeta do Povo

Em defesa da sopa

Para a argentina Mafalda, a criança com crise existencial criada por Quino, a sopa não passa de um pântano empratado. Ver um prato fumegante cheio de líquido a faz filosofar, aborrecida: “A sopa é para a infância o que o comunismo é para a democracia”. Pobrezinha.



O Quino nem para desenhar uma boa sopa para conquistar a menina. Porque, para ser democraticamente palatável, não basta jogar tudo na panela ou abrir uma lata importada de sopa pronta. Tem que saber como entrosar os vegetais, como um bom anfitrião faria em uma festa com pouco álcool.

Há ordem no preparo, apesar de o resultado ser uma bagunça. Há seleção rígida, mesmo que cenouras e batatas passadas sejam aceitas eventualmente.

A chef americana Alice Waters, que em 2007 recebeu o prêmio pelo conjunto da obra da publicação britânica “Restaurant”, confessa no livro “A Arte da Comida Simples” que não gostava de fazer sopas no início de sua carreira.

O motivo que apresenta é simples e sincero: porque não percebia que não sabia fazer. E aí não fazia. O que me faz pensar que os cozinheiros em geral compartilhem do mesmo sentimento e por isso se arrisquem pouco, considerando a sopa um preparo menor diante da possibilidade de fazer musselines burocráticas, que sempre serão boas coadjuvantes à mesa.

Talvez achem que juntar tudo numa panela tire a individualidade dos ingredientes; talvez vejam as sopas como uma panaceia que só merece a atenção do paladar falho dos constipados. Talvez, por achar doméstico demais, o único centro de mesa que releguem à sopa é o da mesa de casa.

São dois exercícios de criatividade inigualáveis: fazer caldo e fazer sopa.

O caldo permite tantas variações quanto a sua geladeira permitir, aconselha Alice. Coloco folhas de cenoura, de alho-poró, uma batata, cogumelos desidratados, ervas e especiarias. E para a sopa, não é necessário indicar uma receita e sim autoconhecimento: deve-se pensar em uma combinação que lhe agrade. Para mim, sopa de tomates.

Começo refogando cebolas salgadas no azeite e depois acrescento pedaços de batatas, rodelas de cenoura, dentes de alho bem picadinhos, folhas secas de curry. Mexo, abafo, desgrudo tudo do fundo da panela com um pinguinho de líquido. Tudo isto vai formar um caldinho escuro saborosíssimo.

Entram os tomates, cerca de oito deles grandes e maduros, cortados em pétalas. Fogo baixo, panela tampada até os vegetais desmaiarem. Caldo de legumes bem quente para tapar o conteúdo e terminar o cozimento das batatas.

Daí, dá pra servir pedaçuda ou triturar tudo. Azeite, pimenta, sal, manjericão fresco direto no prato. A receita completa está abaixo. Nada de ready-made nesta panela, viu, Warhol?


Sopa de tomates

5 dentes de alho bem picadinhos
1 cebola em tiras finas
6 batatas pequenas picadas
3 cenouras em rodelas finas
8 tomates grandes bem maduros (ou mais) cortados em pétalas
caldo de legumes quanto baste
sal a gosto
mix de pimentas em grão moídas na hora
4 folhas de curry
azeite de oliva
manjericão fresco para finalizar

Refogue a cebola em azeite e salgue para que não queime facilmente. Quando estiver bem macia, acrescente batata, cenoura, alho, as folhas de curry e mexa bem. 
Deixe em fogo baixo para que toste levemente os legumes. Se grudar, pingue um pouco de caldo de legumes para deglaçar o fundo da panela. Tampe e deixe em fogo baixo até soltar bastante líquido. 
Acrescente então os tomates. Com ou sem pele; com ou sem sementes, você é quem sabe. As peles e sementes de tomate contêm mais ácido glutâmico, que enriquece o preparo com o quinto gosto, chamado de umami. Prefira deixá-las se você vai triturar a sopa ou não se importar com a textura.
Assim que os tomates ficarem bem moles e soltarem bastante líquido, complete com caldo de legumes, o suficiente para tapar o conteúdo da panela. Tampe e deixe cozinhar até a batata estar macia. Triture ou sirva pedaçuda. Finalize no prato com um fio de azeite de oliva, pimentas moídas na hora e folhas de manjericão fresco.

3 comentários:

  1. Mais uma vez, um belo texto Flávia! E ainda acompanhado de uma bela ilustração! Ual! Quando li que para uma sopa"deve-se pensar em uma combinação que lhe agrade", na hora lembrei das sopas que faço misturando todos os alimentos que estão prestes a estragar hahaha. São combinações que jamais imagino como será o resultado, mas deixo o autoconhecimento me guiar para torná-la deliciosa. Em caso de emergência, tasco curry na panela e tudo se resolve hahaha. Parabéns pelo texto! E a receita já entrou na lista de comidas para me aquecer nesse inverno do sul ;)

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    1. Tasco curry em tudo! É a melhor coisa que já inventaram! Já viu uma pesquisa que mostra que os indianos usam muita coisa que não compartilha das mesmas substâncias, mas que enriquecem sabor do prato? Quem une tudo é o curry, a pimenta e outros balangandãs culinários. Acho que vou escrever sobre isto em breve, pensando agora... rs. Obrigada pelo comentário, meu caro.

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    2. Nunca vi essa pesquisa, mas faz sentido isso. Eu quase sempre coloco um pouquinho de pimenta em receitas salgadas, e por mais que seja pouco, fica bem saboroso o resultado final. Interessante isso. Estarei aqui do outro lado da tela esperando ansioso por este texto ;) De nada!

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