23 de junho de 2015

"que saudades eu senti de comer chuchu", coluna do caderno g

Um texto sobre saudades de comidas da infância. Chuchu foi uma delas. Aqui, o link para a postagem original, no Caderno G da Gazeta do Povo. E aqui, o link direto para a lista de todos os textos publicados por lá.


Ilustração: Felipe Lima/Gazeta do Povo


Que saudades eu senti de comer chuchu

Saudades geralmente se escreve no plural porque uma única coisa não evoca uma única saudade.

Quando passei semanas indo à feira olhando os chuchus sem vê-los, não estava aberta a senti-las, as saudades. E quando, mesmo sob protestos discretos do meu cônjuge, percebi-os e escolhi quatro chuchus do tamanho de um punho, lembrei imediatamente como ficam deliciosos refogados com um pouco de alho e finalizados com vinagre. Pode ser aquele de álcool mesmo, que era o único que eu conhecia quando tinha uns 10 anos, a idade das memórias que me vieram.


Saudades vêm como ondas. Não sei se chegam a sete, mas tem também uma mais forte na série. A que me veio em seguida foi vigorosa: a imagem da Dona Chica, de tamanquinhos, a improvisar um molho branco e uma conserva com cebolinhas. Esta é a vó que me ensinou que é possível fazer um almoço inteiro com uma faquinha de serra em punho.

Minha mãe costuma cortar os chuchus na metade ou em quatro pedaços, sempre longitudinalmente, e mete-os no feijão se a panela é funda – quando morávamos com ela, sempre era. Eles se confundem com todo o resto de coisas que estarão em seu feijão, e é uma surpresa morder um pedaço bem macio, quase cremoso, de chuchu fresco.

Preparei os meus chuchus refogando no azeite de oliva e em seguida, salgando e acrescentando alho. Nas outras bocas do fogão, feijão com louro e cominho, arroz e couve refogada. Digno de um almoço na Dona Chica.

Quando o alho começou a cheirar, baixei o fogo ao mínimo possível e coloquei um fundo de água. Abafei a frigideira por minutos que perdi a conta, mas que devem ter sido uns 15. Ao morder um cubinho de chuchu, ele deve estar macio e passível de ser esmagado por um garfo. Eu gosto assim. E depois, um creme de inhame com noz moscada no lugar do molho bechamel para colocar direto no prato.

Chuchus só se renderão ao fogo e ao tempero se você souber escolhê-los. Essa foi minha primeira lição no início da faculdade, quando debutava também a vida de adolescente morando sozinha em outra cidade.

Um veterano barbudo encarava a pilha de chuchus de um supermercado popular por longos segundos quando apareci para procurar pelas cebolas e abobrinhas. Jacu que sou, esperei até ele me cumprimentar. Retribuí a saudação e ele perguntou: “Por um acaso você sabe escolher chuchu?”.

Sim, por um acaso eu sabia. Os menores, sem espinhos e mais frescos geralmente de cor mais clara são bons chuchus. E às vezes são mais atarracados, sem aquele pescoço alongado. Estes vão cozinhar bem, podem ser preparados sem tirar a casca e terão o bônus da tenra juventude: um macio coração, minha parte preferida dos chuchus desde a infância. Foi a quarta onda das saudades batendo.

“Mas chuchu é sem gosto”, protestam por aí. Quem fala isso não entende nada de chuchu – e talvez nem de corações saudosos.

2 comentários:

  1. Ah, eu amo chuchu! Minha mãe sempre tirava os corações e dava pra mim.
    Uma vez um menino me comprou um chuchu e me deu. Ele disse "um chuchu para meu chuchu".
    Chuchu é sempre boa lembrança!
    Amei seu texto! :***

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    1. Ô, chuchu, fico feliz que tenha te ajudado a ter boas lembranças. Beijoca!

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