15 de julho de 2015

a meditação que segura o xixi

Comida avacalhada é o meu tipo de comida. Fotos: Carlos Felipe Urquizar Rojas/Apneia Filmes

Presa pra fora de casa enquanto esperava o Chile e a Cristal chegarem com o pão e as novidades, sentei num degrau e fiquei agitando as mãos a cada três minutos para que a luz do corredor não apagasse. A internet não pega da porta pra fora. Meu celular estava com 2% de bateria. Nenhuma revistinha ou livro na bolsa. Minha bexiga estava explodindo. Era o momento ideal para praticar meditação, essa coisa inefável que eu sei que vai melhorar minha vida quando eu conseguir parar de mergulhar nas bad vibes como se fossem uma piscina de Chandelle (nem de longe parecem ser; exceto pela coloração) e colocar o foco na respiração.






Cristal rindo do vídeo da Jout Jout Prazer preparando aipim (e morrendo por dentro). Fotos: Carlos Felipe Urquizar Rojas/Apneia Filmes
No caso desta noite, o foco era acalmar o semblante e não mijar nas calças. Coloquei apenas uma condicional para desistir do segundo desejo: se a vizinha saísse da porta, eu gritaria RÁ! e mijaria alegremente nas calças de tanto rir (depois pensei que ela poderia ter um treco e eu, mijada, teria que chamar o porteiro e contar como foi que ela caiu dura com a cara numa poça de mijo no meio do corredor – que bom que ela nunca apareceu). Cumpriria o objetivo da noite com excelência, mas sem respeitar o princípio de não ser cuzona sem motivos. Que difícil é ter escrúpulos.

Não sei porque me batem essas tristezas inesperadas e essa vontade de ser deliberadamente escrota. Eu gostaria de descobrir sozinha. Passei longos minutos (acho que vinte) concentrada em reparar no vão dos azulejos do chão (que não estavam mijados) e caprichando no mūla bandha. Missão bem sucedida. Além de fazer xixi no lugar certo, duas outras coisas me confortam quando chego em casa: un besito en mi amor e calçar os crocs dele. Vou nem entrar nessa polêmica. Vou direto pra historinha da receita.

Tudo pronto pra virar uma coisa só. Foto: Carlos Felipe Urquizar Rojas/Apneia Filmes

Tivemos visita no fim de semana e sofremos porque eles não se mudaram para Curitiba ainda. A Cristal é do blog Um Ano Sem Lixo e o Lucas toca numa banda que tem um alemão sexagenário imperdível, a Frank & Os Magnéticos. Além de horrorizar a Cristal com a quantidade de papel-toalha e plástico-filme que usamos nos dias em que ela esteve aqui (havia motivos, havia motivos), fiz um arroz basmati misturando tudo o que tinha de ingrediente oriental em casa porque queria muito usar uma pasta de tamarindo que comprei no Mercado Municipal. Não faço a menor ideia se desrespeitei alguma tradição milenar fazendo toda a Ásia se aquecer na mesma frigideira, mas decidi que se algum dia um coreano quiser colocar dendê no chimarrão eu não ficaria ofendida. Mas nada (eu disse nada) supera a inabilidade da Jout Jout fazendo purê de aipim.

Brócolis vão por último para a panela para se manterem mais crocantes. Foto: Carlos Felipe Urquizar Rojas/Apneia Filmes


arroz oriental com ingredientes sem relação aparente
serve quatro pessoas fartamente – aconselho aumentar a proporção de temperos em relação aos vegetais e arroz se você gostar de comida bem temperada

1 e 1/2 xícara de arroz basmati cozido sem sal (porque você com certeza vai pesar a mão no shoyu do molho)
1/3 de um bloco de tofu em cubos pequenos
uma colher de sopa de molho de tamarindo
gengibre (o equivalente a três moedas de R$ 0,50) picado bem miudinho
1 cebola roxa picada bem miudinha
3 dentes de alho picados
uns pistilinhos de açafrão pra colorir o tofu ou uma polvilhada fraca de açafrão-da-terra
400 g de cogumelos (metade paris, metade portobello) em fatias largas
2 tomates em cubinhos
1/2 maço de brócolis
4 cenouras em rodelas
shoyu a gosto 
óleo de gergelim a gosto

amendoins torrados para servir
gergelim para servir
manjericão fresco para servir (daquele bem ordinário e picante)
molho de umeboshi com cebolinhas para finalizar

Começo sempre pelo tofu porque ele é sem graça e precisa pegar bastante sabor. Douradinho fica bem bom! Foto: Carlos Felipe Urquizar Rojas/Apneia Filmes

Eu usei uma frigideira imensa, mas poderia ter usado uma panela menor para preparar os ingredientes separadamente e depois juntado numa travessa grande.

Aqueci a frigideira com óleo de gergelim e dourei os cubos de tofu com açafrão com a panela destampada. E então, gengibre e cebola e um pouco de sal para que não queimem tão facilmente. Mexer de vez em quando para não grudarem no fundo da panela. Um fio de shoyu para desgrudar, se for o caso.


Se tem brócolis, cenoura e gergelim já dá pra dizer que é oriental, não? (acho que não) Foto: Carlos Felipe Urquizar Rojas/Apneia Filmes

Coloquei o molho de tamarindo e misturei bem. Provei para ver se o azedo não estava exagerado e achei a pasta bem suave (nada desafiador como eu havia imaginado, talvez porque coloquei muita coisa na mesma panela?). Em seguida, entram os tomates e os cogumelos, que vão soltar líquido, e a cenoura, que cozinha no bafo. Tampa e quando estiver quase pronto, os brócolis por cima, que ficam prontos muito rápido. Eu gosto deles mais crocantes, então não deixo mais que uns três minutos na panela abafada. 


Antes de servir, acrescentei o arroz e corrigi o sal. Foto: Carlos Felipe Urquizar Rojas/Apneia Filmes.

Corrigi o sal com o shoyu e misturei o arroz diretamente na panela para economizar espaço na mesa e polvilhei gergelim. Também dá para montar o prato com o arroz branquinho e o molho bagunçado do lado. Manjericão, gergelim, amendoim e molhinho de umeboshi direto no prato. Comida avacalhada é o meu tipo de comida.

Picando cebolinhas para o molho improvável de umeboshi. Foto: Carlos Felipe Urquizar Rojas/Apneia Filmes

molho de umeboshi com cebolinha
receita do livro A Nova Culinária Vegana (editora Alaúde, 2014)

2 umeboshis esmagadas (usamos o pilão)
5 cebolinhas picadas
água filtrada para dissolver

Parece que vai dar muito errado, porque a umeboshi divide opiniões ocidentais entre "ui credo" e "até que é bom". A umeboshi é uma conserva de ameixa salgada e eu, num arroubo de amor pelas dicas da Sônia Hirsch, comprei um vidro há quase dois anos. Tinha comido uma até então. Com este molho vamos acabar com elas em breve.


No outro dia, fiz de novo com mais tofu, sem cogumelos e com um pouco de palmito que tinha na geladeira. Foto: Flávia Schiochet/Arquivo pessoal

O prato ficou gostoso, apesar de esmilinguido. Fiz mais uma vez no dia seguinte, sem os cogumelos e com mais tofu e um resto de palmito. Aprovado também. Ohm!

4 comentários:

  1. Orra as fotos do Chile sempre me fazem babar. (mas deve ser porque tava gostosíssimo mesmo né?)

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    1. Estava sim! Mas quero fazer uma apresentação mais bonita da próxima vez. Que bom que você voltou a aparecer aqui, John. Beijo!

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  2. Eu fizzzzzzzzz! Ficou incrível! As únicas mudanças foram: não coloquei tofu porque não tinha e coloquei castanha de caju em vez de amendoim pra finalizar! MARAVILHOSO!!!! Beijos,
    Ju Ruiva.

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    1. AI QUE DELÍCIA! Manda foto! Beijo, beijo!

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