28 de julho de 2015

mais azeda que chucrute


“Detesto aquele lugar. Muito gourmet”. Ouvi a frase incrédula. Ultimamente tem uma pá de gente mal dizendo qualquer lugar que tenha um djobi-djobá. Só porque o lugar cobra o quanto vale a comida de verdade – com a maioria dos ingredientes orgânica, com técnica e estudo, com nuances de sabor e uma apresentação interessante – já não é bom pra ir. Parece-me que tem que ser barato e vir em uma embalagem colorida para ser gostoso ou ser servido às toneladas para valer cada garfada e centavo. Todo mundo tem dias assim, oras. Mas a galera tá levando prum nível profissional isso de detestar o "gourmet". Minha suspeita é de que nunca se acostumaram a provar novos preparos do mesmo ingrediente. Se comer é tão bom, porque a gente sempre quer comer a mesma coisa?
Não entendo esse orgulho de ser junkie. De ser anti-à-la-carte só porque tá na moda se embuchar no buffet livre. De achar que é normal encher seu estômago de produtos comestíveis – que são bem diferentes do que poderia realmente ser considerado comida. "Flávia, você é um porre. Um porre de vodka barata". Tô sabendo. Esse mês tô mais azeda que chucrute. Segura.



Eu também curto comer comida zoada. Mas eu mesma faço, porque é tudo o que sei fazer. Eu também amo comida frita e/ou cheia de açúcar ou que leve qualquer ingrediente em quantidades mais do que saudáveis, mas aí saio de casa para comer e pago o preço que se cobra porque eu sei o trampo que dá fazer certas coisas. Sonho recheado, por exemplo. O ponto aqui é: não importa se a gente defende comida de boteco ou menu degustação. Mas o sabor que a bagaça tem, digamos, por mérito do preparo e ingrediente e não porque tá cheio de aditivos. E a percepção disso eu acho que todo mundo deveria exercitar.

Os anos de inocência do consumidor ficaram para trás. A tríade gordura (seja ela animal ou vegetal), açúcar e sal – ou o famigerado glutamato monossódico, que ajuda a intensificar sabor até de papelão –, é a coisa mais ordinária inventada pela indústria e continua firme e forte em industrializados e em grandes redes de fast food. Todos nós sabemos disso, até quando fingimos não ler a embalagem. O que realmente entusiasma as pessoas é hambúrguer-alface-queijo-molho-especial ou os realçadores de sabor? Até uns 15 anos de idade, é compreensível. Depois disto é a prova cabal de que o paladar infantil reina naquela boca e tchau, gosto adquirido! Ficará cada vez mais difícil explicar para aquelas papilas que há outros sabores, outros prazeres. A vida adulta fica cada vez mais chata sendo povoada por gente que não come nada que tenha textura diferente de pão, de batata ou de carne mole. Ou que prefira todas as sobremesas muito doces, cheias de camadas. Ou, sempre que há, fritura, fritura, fritura. E catchup (que eu amo. sou da opinião de que temos que ter um guilty pleasure e não viver deles).



"Bolo é bolo, churro é churro", vaticinou um jornalista do Ceará esses dias, quando dividimos a mesa de um restaurante de hotel em São Paulo. Esse híbrido é o que menos me preocupa – bolo de churros é canela com doce de leite, não vou me negar um pedaço jamais. Mas me assustam as transmutações que estão em voga. O churro é uma delas. E o cara emendou uma informação escabrosa: a onda agora em Fortaleza é uma coisa chamada Taça da Alegria ou coisa que o valha. Engraçado: mal fez um ano que choramos a derrota da Copa do Mundo e um prato com um nome desses de repente vira febre. A tal sobremesa consiste em misturar vários sabores de sorvete e caldas mil, cobrir tudo com o (o horror, o horror!) chantilly e chunchar uns churros por cima, para coroar. É a derrota de duas sobremesas: um bom sorvete e um churro fresquinho são imbatíveis. Juntos viram apenas um Frankstein açucarado.

***
[As fotos são uma cortesia da pasta "línguas horrorosas" que acabei de criar no meu desktop.]

4 comentários:

  1. Gente que se orgulha de ser ignorante, né? Jamais entenderei onde fica esse orgulho em não conhecer novas coisas ou aprender. Jamé.
    Tu tá azeda tipo vinagre de framboesa? Taco uns nibs de cacau pra te equilibrar, ô!

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  2. Tenho reparado muito nisso também. Não como, ainda, do jeito que gostaria de comer, mas tenho experimentado uma vida muito mais saudável e feliz depois de algumas mudanças no meu prato.
    O que me deixa puta e azeda e com vontade de fazer o Michael Douglas em "Um Dia de Fúria" é que muitos desses amantes de comida bizarra não se contentam apenas em comer essas coisas. Parte do prazer é atacar a Bela Gil e a lancheira DELICIOSA da filha dela. Porque, né. Como pode uma pessoa não entupir uma criança de trakinas e achocolatado de caixinha na hora do recreio? ¬¬
    E aí a gente vê esses "sites de humor" fazendo posts e mais posts ridicularizando a Bela, que não apenas come alimentos saudáveis como faz isso depois de anos de estudo sobre alimentação e preparo de comida. E, meu deus, ela tá na televisão, sabe, mostrando pra galera que é possível fazer coisas interessantíssimas sem um atestado de AVC do lado. Isso pra citar apenas a Bela...
    Enfim. Também ando azeda. E aí lembro do pepino azedo que a minha vó fazia, com endro e parreira e amor. E, no final das contas, azedo é uma baita coisa boa.

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    1. Dai, eu estou muito desanimada nos últimos tempos, com vontade até de largar os bets. Mas aí você me aparece com essa lembrança de pepino da avó, dizendo que também está assim, saturada, cansada desse comportamento de hater e tal. Poxa. Vejo que é um sinal dos tempos em que vivemos, tá na moda ser assim, depois passa. Dá mais vontade de achar um caminho e não só sentar no acostamento. Obrigada por isto. Beijo, volte mais vezes.

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