7 de julho de 2015

"o pedante me entende", coluna do caderno g

Uma indicação de livro travestida de coluna; uma coluna travestida de indicação de livro. Espero que leiam (o texto e o livro). O texto no link original está aqui. Se você quiser ler o que já publiquei como colunista do Caderno G do jornal paranaense Gazeta do Povo, clique aqui.

Ilustração: Felipe Lima/Gazeta do Povo

O pedante me entende

Considero-me uma pessoa com sorte quando escarafuncho as prateleiras de uma grande livraria e em meio às dezenas de títulos que me prometem mais ou menos a mesma coisa – fazer lindos cupcakes, dominar o preparo da comida mediterrânea ou alguém relativamente famoso indicando lugares onde comer; em miúdos: “cozinhar e comer melhor” – encontro uma pérola de 140 páginas sobre um neurótico britânico que se põe histérico com imprecisões em receitas.



O livro é “O Pedante na Cozinha” e quem destila todo seu sarcasmo em frases cortantes como uma Santoku bem afiada é Julian Barnes, um escritor famoso que eu não havia lido até então porque simplesmente não vivi o suficiente para ler muita coisa ou trabalhar melhor minhas figuras de linguagem.

Se lermos trechos aleatórios, o livro parecerá um breve resmungo sobre como cozinhar pode ser desastroso. Até aí, nada de novo. Mas seu tom é tragicômico, o que me fez ler o pequeno livro enquanto recolhia a roupa, guardava a louça, mexia um risoto, etc., rindo, e muito.

Como não gostar de alguém que se reconhece como um pedante? É meio caminho andado para ser uma pessoa resolvida, dizem.

Arrisco dizer que Barnes também se diverte ao propositalmente transparecer tanta aflição. A cozinha é dos aflitos, pois; em especial a doméstica. Passaremos inúmeros momentos confrangidos, especialmente nós, os inexperientes, ao ler “farinha de trigo até dar o ponto” (qual ponto?!) ou ao aguentar o olhar de “meu bom Jesus, de onde veio esta pobre criatura?” quando perguntarmos a um feirante qual a época da rúcula.

Em uma de suas confissões, chamada maliciosa e deliciosamente de “Não, isso eu não faço”, o escritor descreve a sobremesa Nêmesis de Chocolate: “[...] um prato no qual se espalha algo circular, marrom, lamacento e que, decididamente, não tem lá uma boa aparência – na verdade, parece bosta de boi”.

Ele jamais tentará fazer esta receita porque, gato escaldado que é, desconfia que os autores omitem detalhes importantes em receitas icônicas.

É um manifesto em poucas páginas contra os livros mal escritos e/ou mal revisados, em que o autor presume que o leitor tem uma intuição infalível em relação a pudins e outros pratos naturalmente disformes. Não temos.

“Estamos descobrindo – de maneira dolorosa e um pouco humilhante – que não estamos dispostos a isso, porque não somos cozinheiros profissionais”. Serviu-me como autoajuda.

Sabe-se lá em que seção da livraria eu estava em 2008 quando a Rocco lançou essa ode ao mau humor. Sinto que o pedante me apoiaria nos momentos mais ridículos, em que sabemos ter feito o nosso melhor – e que mesmo assim não foi o suficiente.

Como daquela vez em que uma receita mal escrita de pão integral “simplificado” me fez cometer uma sucessão de erros que culminou em jogar fora uma rosca dura de trigo e água amalgamados. Depois daquele dia, fiquei alguns anos sem sovar pão, num misto de orgulho e preconceito.

Barnes, sim, tem a receita perfeita da qual precisamos para lidar com essas e outras frustrações: fazer da auto-ironia um porto seguro.

(Informação bônus, se o interessado souber manejar o Google: há sites em que o livro está à venda por um preço mais barato que o quilo da azeitona Azapa.)

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