17 de agosto de 2015

"a morte da bezerra", coluna do caderno g

A de hoje é sobre aquele momento da noite em que você vira um zumbi. Você pode ler o texto abaixo na página original clicando aqui ou ler todos os textos que publiquei como colunista do Caderno G desde o fim de março clicando aqui.

Ilustração: Felipe Lima/Gazeta do Povo

A morte da bezerra

Se algum dia houver o tal apocalipse zumbi, meu palpite é que a legião a se transmutar será composta por pessoas que entram correndo em casa, mas subitamente acabam a noite jantando na pia. Olhos vidrados no bebedouro e pancinha apoiada na bancada de fórmica, mastigando bovinamente um sanduíche. E os pensamentos lá na morte da bezerra.
Por que insistimos nestes beliscos furtivos, mesmo quando o compromisso seguinte é uma noite de sono? Por que continuamos comendo de pé, as fatias de pepino grudando no chão enquanto limpamos a boca com a mão, passamos em seguida na calça e damos um gole atrás do outro para desembuchar, piscando apenas uma vez por minuto? Grãos de milho que entopem ralos e um nariz sujo de maionese não parecem agilizar muita coisa se é pressa que alegamos – pelo contrário.

Costumamos culpar os tempos modernos. Para o jornalista americano Michael Pollan, que escreve sobre alimentação há bons 25 anos, a coisa piorou exponencialmente depois que as refeições prontas invadiram o mercado. Pollan diz que as famílias estão se desmantelando no momento em comum mais importante de um lar: partilhar uma refeição com a bunda na cadeira, olho no olho (e não num ecrã) e talheres. Quem sou eu para discordar o que ele explica tão bem no livro “Cozinhar”?

Mas acho que há mais caroço nesse angu: minha teoria é de que naquele momento automático as pessoas acreditam economizar tempo ou calorias. Ou os dois. Na ânsia de terminar a refeição logo e fazer qualquer coisa mais importante (o que seria mais importante que comer?!), passamos dez minutos alternando o peso do corpo entre uma perna e outra, lambendo colheres e cobrindo pizzas geladas de catchup sem perceber que aquilo é uma refeição e não apenas a urgência de parar o ronco do estômago. Tem gente que sente que não comeu se não se sentar à mesa. Achar que come pouco porque mal rela na cadeira é meio tolo, mas mais frequente do que gostaríamos de admitir. Temperamos nosso lanche com auto-sabotagem.

Perceba, leitor, que não falo aqui daquele momento em que assaltamos a geladeira de madrugada à la Nigella. Isto é um bônus, uma escapadela da gula em livre demanda. Falo dos triviais café da manhã, almoço, jantar, café da tarde – refeições que merecem uma toalha de mesa e uma cadeira, no mínimo. Companhia, se possível. E tempo, principalmente.

Há anos vi uma tira humorística que ilustrava a afirmação de que apenas duas espécies comem de pé: os jornalistas e os cavalos. Estou meditabunda desde então, alternando o peso do corpo entre uma perna e outra e comendo um sanduíche que se desmancha ao menor toque. Com a pancinha apoiada no balcão de fórmica, não sei se relincho ou se reviso este texto.

2 comentários:

  1. Respostas
    1. Amada, acabei de apertar num botão errado e deletar sem querer seu comentário. Me sinto uma anta. Uma anta lisonjeada. Obrigada pelas palavras, pelo apoio e me desculpe a mancada. Guardarei no coração sua mensagem. <3

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