27 de outubro de 2015

"no berço do improviso", coluna do caderno g

Minha cozinha nem de longe tem tantas facas quanto as que o Felipe desenhou, mas isto ilustra bem a ideia do texto: de que a cozinha nos força a buscar soluções de qualquer jeito, esteja você onde estiver e com quantas facas for. Sempre vai ter aquele momento em que é preciso rebolar e o rebolado sairá mais bonito se você começar pelo simples. Pela faquinha de serra, pela panela estropiada, etc etc. Se você quiser ler no link original, clique aqui. Se quiser ver o que já publiquei como colunista do Caderno G da Gazeta do Povo, clique aqui (ou, para uma lista completa, aqui).
Ilustração: Felipe Lima/Gazeta do Povo

No berço do improviso

Se não tem coentro, vai salsinha; se faltou leite, mete água; se ficou sem amido, arrisque com fécula. Afinal, a cozinha é o berço do improviso. Foi lá que a necessidade deu à luz essa ligeireza pra resolver as coisas que só os calejados têm e foi nela que muito paladar se adaptou a gostar das coisas como elas não deveriam ser, mas que, graças aos céus, acabaram deliciosamente sendo.

Não é que o palato se acostume com o ruim, é que ele pode, vez ou outra, acabar sendo surpreendido positivamente pela carência de condições ideais. Ó pá, imagine a cara do primeiro gajo a provar o quindim com coco enquanto se chorava a falta de amêndoas por aqui!

Se não tem luva, vamos dobrando um pano seco assim-assim. Se não tem espátula, usa a faquinha de serra. Se não tem xícara, mede com a caneca.

Nem todo berço é esplêndido: cozinhas que já nascem muito bem equipadas perigam virar cenário de si mesmas.

Há tantas possibilidades dentro de uma só panela, mas nos acostumamos mal: me veja esta lista inteira de enxoval, depois a gente vê se vai usar tanta coisa.

É máquina de lavar louça, de fazer pão, robô que substitui 24 eletrodomésticos e por aí vamos entupindo nossas bancadas com equipamentos.

Mas precisaria a cozinha doméstica de muito mais que um liquidificador e uma panela de pressão?

Talvez sim, mas antes, tentemos lograr o máximo com pouco, pelo menos uma vez, para sentir como é.

Preparar uma refeição inteira com a tal faquinha de serra. Moer o pesto à mão. Bater clara em neve no muque.

É bom começar mambembe pra aprender a se virar com o que vier, seja um fogareiro no meio do Atacama ou uma cozinha digna de showroom.

Na falta de café, vai chá preto. A receita pedia ovos, mas só tinha linhaça. Fermento no fim? Tasca bicarbonato de sódio.

Arrisca-se muito em substituições às cegas. Pode ser que arruine o jantar. Pode ser que se descubra o próximo prato preferido.

Se o cozinheiro for de aventura, pode ser que crie uma série de anotações minuciosas sobre as variáveis daquele preparo – e ganhamos todos.

Mas respiremos aliviados: qualquer receita guarda em si o potencial para desandar.

Dizem que é a mão da pessoa. A velocidade e os movimentos com que se bate uma massa de bolo. Se usou um fuê, uma colher de pau, um garfo simples. O ponto da massa, a temperatura e o tempo no forno.

Coisa que só quem abatumou, queimou e encruou seguidas vezes sabe prever e consertar. E, quando aquele pão finalmente cresce e assa perfeitamente, sentir que cozinhar parece ser uma maneira de nascer de novo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário