8 de dezembro de 2015

"tango no hortifruti", coluna do caderno g

No texto desta quinzena, escrevi sobre um assunto, mas na verdade falo sobre duas coisas. Sei que vocês são espertos. Se quiserem ler no link original, aqui está. Se quiserem ler tudo o que publiquei no Caderno G como colunista, clique aqui.

Tango no hortifruti 

O globo ocular consiste em uma esfera coloidal, córnea, íris, pupila, retina e mais um monte de outras estruturas e espaços delicados metidos no nosso e no crânio de outros bichos. É uma gelatina que se mexe sem parar e, mesmo frágil, movimenta músculos e nervos querendo eles ou não. É o tecido conjuntivo mais sarado depois do abdômen da Pugliesi.


Porque todos os olhos que existem são mais ou menos a mesma coisa fisiologicamente, é natural pensar que eles vejam as coisas da mesma maneira: a cor verde, o fígado à milanesa, o espaço pífio que ocupa a ciclovia em uma cidade. Dilata no escuro, arde quando escorre xampu e deve ter “gostinho de ostra”, como disse aquela participante de um reality show. Mesmo zarolho ou míope, um olho é um olho (é um olho). Mas cada olho sabe o que enxerga e como enxerga.

Se a repulsa é bombeada artéria acima quando a vista bate na língua pendurada no açougue, não há muito o que fazer. Apenas encarar a ironia e tocar um tango argentino: mudar de assunto, de hábitos, de ares. Num compasso de dois por quatro, bailando até encontrar a sessão de hortifruti. São pequenos sinais e muitas experiências que nos fazem decidir o caminho para onde seguir. Ninguém além de si mesmo nesta dança solitária pelo mercado de almas que é o mundo. Uma peça rósea com capa de gordura num gancho: a vida inteira que poderia ter sido e não foi.

O que aconteceu? Há pessoas que de um momento para outro, começam a se incomodar com a visão. É como se uma geleia de brilho fosse aplicada sobre a córnea e nada passasse de um blur: uma incomodação que se sabe bem como resolver, mas se tem preguiça, medo, delírio. Procuram um oftalmologista e pingam colírios, tapam os olhos e leem letras miúdas, saem cegas do consultório e pensam que talvez nunca mais voltarão ao normal, que saber da insuficiência da vista será insuportável para o resto da vida. Quando o assombro passa, vê-se com clareza não só o que incomodava, mas o que causou. Algum mau costume, qualquer pequena falha na formação ou manutenção, um desvio que prontamente pode ser corrigido. Além de conforto ótico, espera-se facilitar as coisas, especialmente para o cérebro.

É inútil tentar explicar para alguém que nunca se inquietou com o jeito que enxerga a incerteza que se tem sobre a nitidez da própria visão (e a confusão que isso proporciona à massa cinzenta). Vão dizer que você ainda não sabe, mas é assim mesmo e que é melhor deixar essa investigação de lado, que a coisa mais fácil é matar logo essa pulga atrás da orelha. E que com o tempo você se acostuma com o incômodo. Eles têm razão. É assim mesmo para alguém que não consegue ver pelos olhos dos outros.

2 comentários:

  1. sinto muita falta de suas crônicas

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    1. com um mês de atraso eu venho te dizer que estou emoldurando seu comentário no meu coração. tô sentindo muita falta também. mas mestrado, sabe como é. a gente procrastina fazendo coisas inúteis em vez de escrever crônica. vamos ver se mudo esse quadro. obrigada pelo comentário, de verdade. significa muito pra mim :)

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