15 de agosto de 2016

a depressão é uma despensa cheia de comida podre

Foto: Caravaggio in Cucina/Reprodução
Você chega em casa – a mesma casa em que morou a vida inteira – e tem um cheiro podre no ar. Você abre a geladeira, os armários, as janelas, queima um incenso. É a primeira vez que você sente esse cheiro. Esse tempo todo você dizia às visitas que elas pisaram em merda de cachorro.


Em agosto, fez um ano que eu senti algo estranho no ar. Antes fosse um pacote de couve-de-bruxelas. Descobrir que era depressão explica muita coisa na existência deste blog: do nome às ausências, o tom dos posts, a falta de vontade que me acomete há anos de continuar com um projeto pessoal que só depende de mim. Eu cozinho quando estou muito agitada, eu como excessivamente quando a tristeza e ansiedade atacam. O contrário também é verdadeiro em alguns casos: comer qualquer coisa por não conseguir ter paciência para cozinhar e ficar horas sem comer até não aguentar mais e beber água. Dormir. Acordar nova no outro dia, mas com medo de que alguma dessas sensações se repita. Os ciclos são alternados. Ansiedade e desânimo, agitação e paralisia, choro e apatia. Depressão não é apenas incapacidade de sair da cama. É também perder a vontade de fazer algo que te animava antes (fazer um blog, um esporte, estudar uma língua, ir à faculdade, namorar, ver os amigos), é perder a paciência, é ser uma pessoa desanimada, mau-humorada, azeda e ferina. Ninguém gosta de ser assim e muita gente acaba entendendo que este é o seu jeito.

Foto: Caravaggio in Cucina/Reprodução

Tratar um transtorno psicológico como parte da personalidade não é algo recomendável de se fazer – e foi o que eu fiz, até desentupir minhas fossas nasais. Ter um hobby que ajude a diminuir a frequência das crises ajuda, mas não por muito tempo. O diagnóstico, depois de aceito, é libertador. É como reorganizar a cozinha e saber onde começou aquele cheiro. Limpe a despensa de vez em quando, nem que pra isso tenha que meter mágoas goela abaixo. Você vai ver que azedas que estão aquelas memórias que você já deveria ter jogado fora. Que aquele ressentimento em estoque não serviu para nada: e ainda estragou o resto.

Foto: Caravaggio in Cucina/Reprodução

Se fosse diabetes, eu não teria demorado tanto tempo para falar abertamente. Talvez nem tivesse vergonha: no mesmo dia do diagnóstico tascaria um post reclamando de não poder comer açúcar, faria piadas com insulina. Eu me conheço. Eu vivo falando dos meus triglicérides altos e colesterol bizarramente elevado, por que não escreveria sobre meus outros problemas? Por que esconder uma condição com a qual provavelmente nasci? Se fosse uma doença tratada sem tabu, saberíamos de cor qual a melhor dieta para pessoas depressivas, como lidar com alguém que apresenta sintomas, como ser uma pessoa disponível sem pressionar a melhora imediata de quem tem depressão.

Foto: Caravaggio in Cucina/Reprodução

Quando o psicólogo me disse: "Você precisa saber que este é um tratamento solitário". Ora, "solitário", pensei: o que pode ser pior do que já senti? Entendo muito de solidão. Sempre me senti sozinha, mesmo acompanhada, mesmo tendo o apoio de todas as pessoas importantes em minha vida. Mesmo sabendo quanta gente me quer bem apesar de todas essas notas a ranço que eu exalo.

Mas a gente, na verdade, só vê a dimensão dessa solitude quando se desprega dela. E aqui, solta dos delírios que a minha cabeça ainda inventa, é tão melhor. Tem sal, mas não é de lágrimas. Tem doce, mas não de indulgência. Tem amargo e azedo também, equilibrados, aparecendo aqui e ali para realçar o que está bom. E o retrogosto deixa de ser alívio por não ter tido um dia ruim e passa a ser tranquilidade e contentamento.

Foto: Caravaggio in Cucina/Reprodução

Nada disso seria possível se eu não tivesse dado o braço a torcer e diminuído o ritmo. As primeiras coisas que caem são os prazos auto-impostos, a pressão (interna e externa), o envolvimento com o que não é seu. Do que a sua cabeça é capaz, só você sabe: dizer não e dizer sim precisam resultar em saúde e não em mais ansiedade. A segunda foi perder o medo dos remédios e reconhecer que o que eles fazem é valioso: enquanto o seu cerébro está entupindo toda a extensão das prateleiras com comida estragada, os antidepressivos abrem espaço e metem ali um vaso de alecrim, arranjam uma noz moscada fresca, penduram um ramo de camomila para secar. É um abraço e uma xícara de chá dentro de uma cápsula. Ficar de pé é melhor que tomar porre – e falo por experiência própria.

Foto: Caravaggio in Cucina/Reprodução

***

Imagens do post: Caravaggio in Cucina, fotografias com luz dramática do fotógrafo italiano Renato Marcialis.

Foto: Caravaggio in Cucina/Reprodução

PS: Muita gente vai dizer que este post é se expor demais, mas foi só porque muita gente (amigos e desconhecidos) se expuseram na internet é que eu pude ver que precisava de ajuda. Obrigada a todos vocês.

PPS: Se você acha que alguém que fala abertamente sobre isto quer chamar a atenção e se fazer de coitado: vá tomar no cu.

PPPS: E se você acha que pode ter depressão, ansiedade e outros transtornos, te digo: foda-se a vergonha. Se tem algo podre na sua cozinha, alguém com certeza vai te ajudar a limpar. Se precisar, me chama: flanzies@gmail.com

20 comentários:

  1. Linda, parabéns pela coragem! É isso mesmo, temos que falar e nos abrir. Seu depoimento me ajudou e tenho certeza que ajudará muitas pessoas! Abraço apertado!

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  2. Doçura, escreva mais vezes sobre isso.
    As pessoas que se expõe a respeito dos problemas nunca estão se expondo à toa, tão ajudando a gente a ver que não somos os únicos morrendo de solidão. Ou abatumando bolos, ou o que for.
    Bem no fim, nos encoraja muito mais andar pelo mundo de peito aberto.
    Te amo mais que cuca de farofa.

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  3. <3 <3 <3

    foda demais Flávia. cada vez mais seu fã e pah, aprendo muito contigo!

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  4. Flávinha, que dizer dessa pessoa que mal conheço e já considero pacas?
    Não tenha vergonha de falar a respeito da depressão, não tenha vergonha de tomar medicamentos, não tenha vergonha de procurar ajuda. Ninguém faz piada com quem tem câncer e acho inadmissível que façam com quem tem depressão.
    Sinta-se abraçada, afofada e amada por todos nós.
    Talvez você já tenha ouvido, mas, caso não, o Mamilos fez um programa a respeito da depressão, foi excelente, ouça se sentir à vontade: http://www.b9.com.br/65799/podcasts/mamilos/mamilos-75-depressao/
    Fique bem, queridona.
    Um beijo.
    Grazi

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  5. Amiga, admiro demais você ter achado a coragem e as palavras pra falar sobre isso, mas não é surpresa nenhuma pois sempre soube que você arrasa tanto em ter força quanto no texto belíssimo! Que bom saber que você está enchendo a cozinha de coisas gostosas, e tenho certeza que você vai ajudar muita gente a fazer o mesmo com seus textos e isso é muito importante. Saiba que você pode contar comigo sempre para qualquer coisa, nem que seja pra rir de umas besteiras! Beijão e saudades <333333

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  6. Flavinha, você é realmente especial,alguém que tem o poder de usar as palavras com maestria. Saiba que com este texto você conseguiu fazer a diferença no dia de muitas pessoas e com certeza, na vida de muitos mais. Compartilhar sua vida com a gente dessa forma é um ato de amor lindo. Parabéns!

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  7. Queria muito falar o quanto amei, me identifiquei e vi pessoas queridas nesse texto... Mas estou sem palavras.
    Só consigo te dizer um muito obrigada. De coração.

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  8. alguém me entende! que sensação boa!

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  9. Anônimo13:41

    Consegui sair da minha cozinha podre recentemente, obrigada por esse texto. Adorei a analogia dos remédios, concordo com tudo - são mesmo um abraço e uma xícara de chá. Grande abraço, Luiza Medina.

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  10. Senti a sensação de te conhecer tão bem ao ler essa postagem, ao ler tantas coisas que se encaixam em minha vida, hoje, aos 24 anos e depois de um ano de casada percebo que a depressão que foi diagnosticada ainda continua, após os 15 anos sempre tive muito indicio a ter grandes crises, mas me mantive ocupada por muitos anos, após me mudar para Jaraguá, uma cidade nova, onde não conhecia ninguém a não ser meu marido e não saber nem como fazer amizades eu me deparei com ela novamente, este ano que passou foi horrível, tentei de várias formas (em vão) fazer passar, tentei de várias formas colocar na minha cabeça que isso era somente uma fase e passaria, e passou, passou um ano e nada aconteceu para mudar.

    Com relação aos remédios, não tomo desde os 15 anos (pelo menos não os mais fortes pois tenho uma enorme tendencia a não parar de tomar) e mesmo assim as crises continuam pelo simples fato que eu realmente não sei como fazer uma amizade e não posso depositar toda minha vida no meu marido, como fiz esse ano que passou. :(

    Poderia não ter me exposto tanto assim em um comentário mas como disse no inicio, me identifiquei muito com tudo que escreveu e acabei desabafando. :(

    Qualquer coisa se precisar conversar para arejar essa cozinha do pensamento, só me chamar.

    Beijos.

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  11. Senti a sensação de te conhecer tão bem ao ler essa postagem, ao ler tantas coisas que se encaixam em minha vida, hoje, aos 24 anos e depois de um ano de casada percebo que a depressão que foi diagnosticada ainda continua, após os 15 anos sempre tive muito indicio a ter grandes crises, mas me mantive ocupada por muitos anos, após me mudar para Jaraguá, uma cidade nova, onde não conhecia ninguém a não ser meu marido e não saber nem como fazer amizades eu me deparei com ela novamente, este ano que passou foi horrível, tentei de várias formas (em vão) fazer passar, tentei de várias formas colocar na minha cabeça que isso era somente uma fase e passaria, e passou, passou um ano e nada aconteceu para mudar.

    Com relação aos remédios, não tomo desde os 15 anos (pelo menos não os mais fortes pois tenho uma enorme tendencia a não parar de tomar) e mesmo assim as crises continuam pelo simples fato que eu realmente não sei como fazer uma amizade e não posso depositar toda minha vida no meu marido, como fiz esse ano que passou. :(

    Poderia não ter me exposto tanto assim em um comentário mas como disse no inicio, me identifiquei muito com tudo que escreveu e acabei desabafando. :(

    Qualquer coisa se precisar conversar para arejar essa cozinha do pensamento, só me chamar.

    Beijos.

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